Comemora-se hoje, desde novembro de 2019, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, um reconhecimento da abrangência geográfica do português e da sua primazia histórica na globalização, tornando-a numa das “línguas da comunicação global”.
Estruturado em 58 diálogos entre Ruano e Dr. Orta, descreve com grande exatidão plantas, ervas e frutos da Ásia, principalmente da Índia, insistindo na premissa, que fundamenta o método experimental, da observação direta sobre o conhecimento da autoridade e na recolha tradicional, junto de boticários e médicos indianos, das suas propriedades terapêuticas e formas de aplicação. À época da publicação, Garcia da Orta estava já estabelecido na metrópole indiana há mais de 30 anos e era um elemento importante da comunidade administrativa portuguesa e local.
A
primeira parte da sua vida na Índia, acompanhando Martim Afonso de Sousa (c.
1500 – 1571), é passadas nas expedições militares para onde este é enviado e que aproveita para
registar observações. Médico dos vice-reis e amigo dos príncipes locais, deverá
ter ensinado no Real Hospital de Goa, instituição que é exemplar do progresso
médico e do seu ensino. Os Colóquios remetem para esta experiência de
vida, referindo notas etnográficas dos locais onde as plantas foram observadas
e apontamentos literários de carácter auto-biográfico.
A publicação da obra em Goa, na tipografia ali existente no Colégio de S. Paulo dos jesuítas, que era inicialmente destinada à Etiópia, e em português poderia ter levado a obra para o caminho do esquecimento científico renascentista, onde proliferam outros textos nesta linha, embora de publicação posterior. É o caso de Cristovão da Costa (1525-1596), auto-denominado o Africano, que em 1572 publica uma obra muito próxima da de Garcia da Orta, em Burgos, ou de Nicolás Monardes que faz o mesmo, em 1569, para o mundo natural das Índias Ocidentais, ou Américas.
Exemplar BND [aqui]
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| Canela |
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| Tamarindo |
O destino da 1ª edição dos Colóquios é determinado pelo acaso de um naturalista, Charles l’Ecluse (1526-1609), empreendendo “viagens de instrução” por vários países da Europa e, devido a estas, ter-se decidido a empreender expedições naturalistas que o trouxeram à Península Ibérica, onde se manteve durante algum tempo a ‘herborizar’, tendo contactado com a obra de Garcia da Orta em Lisboa, em 1564 ou 1565, resolveu traduzi-la para latim e publicá-la. Este empreendimento não correspondia a uma tradução direta da obra de Orta, mas sim a um resumo, um ‘Epítome’ desta, de onde desapareceram as marcas de coloquialidade e as digressões literárias. Também a sistematização a que sujeitou as observações e conclusões e a adição de imagens contribuíram para um acolhimento muito maior do texto por um público atento e curioso A 1ª edição é de 1569, tendo tido 5 edições nos anos seguintes:
Aromatum et simplicium aliquot medicamentorum apud Indos nascentium historia: Primum quidem Lusitanica língua per Dialogos conscripta, D. Garcia ab Horto, Proregis Indiae Medico, auctore Nunc vero Latino sermone in Epitomen contracta, & iconibus ad uiuum expressis, locupletioribusque, annotatiunculis illustrata a Carolo Clusio Atrebate.
A obra de divulgação de Carolus Clusius, como era conhecido,
com a publicação em latim de 3 textos ibéricos e, principalmente, o português
de Goa, trouxe ao diálogo europeu uma concretização do novo método das ciências
experimentais e que terá a sua sistematização no Novum Organon, de
Francis Bacon e nas experiências físicas de Galileu sobre o movimento. O
contributo da obra de Orta para o progresso da Ciência e a sua revolução no
séc. XVII é inegável. A sua prática de vida e registo, uma enorme erudição e o
pressuposto da procura da verdade na Natureza sobre a autoridade são marcas da
modernidade que o renascimento imprimiu à criação de uma ciência que terá um
novo paradigma nos 2 séculos seguintes.
(...). Garcia da Horta estava de posse d'um methodo scientifico rigoroso e arvorava a observação em criterio infallivel nas sciencias naturaes. (…) emancipa-se do respeito pela auctoridade e a sua divisa é esta: eu vi. Tambem o meio em que vivia dava-lhe uma certa liberdade de pensar e de exprimir o seu pensamento. Em Hespanha – é elle que o diz – certamente não se atreveria a afirmar coisa alguma contra os /p. 281/ gregos e nomeadamente contra Galeno, (…). Não me ponhaes medo com eles, eu vi. [Nota: Coloquio IX, do benjuy, I, p. 105] – LEMOS, Maximiano, Historia da Medicina em Portugal. Doutinas e instituições. 2 vols. – Lisboa: Manoel Gomes, editor, MDCCCXCIX [1899] . Vol. I pp. 280-281 – BA 39-XI-72
Edição magna da obra de l'Écluse, publicada em 1605 em Antuérpia, com os textos por ele traduzidos.
E o primeiro destes livros da ciência natural impresso está escrito em português, publicado numa colónia longínqua do que era “o Orbe lusitano” na segunda metade de quinhentos, por um homem que encarnou a erudição e a vida aventurosa como premissas para a análise do mundo natural à sua volta, exemplar dos nossos navegadores, colonos e cronistas da Índia e do seu contributo para as novas fronteiras da ciência europeia que então se iniciava.
Para saber mais:
Biografia (exemplar da BA 116-III-46)
Avaliação e contexto científico de época
Edição anotada e dirigida pelo conde de Ficalho:
Colóquiosdos Simples e Drogas da Índia por Garcia da Orta. Edição publicada por deliberação da Academia Real das Sciencias de Lisboa. Conde de Ficalho, dir. e anot. Lisboa: Imprensa Nacional, 1981
BA 39-XI-70








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