Camões na BA: a música

memória de Camões na Biblioteca da Ajuda está presente em todas as áreas do seu acervo documental, quer seja manuscrito ou impresso. O Poeta que, nas suas palavras afirmou "... Cantando espalharei por toda a parte..." a aventura maior dos Portugueses, foi ele próprio e a sua obra, tanto épica como lírica, fonte de inspiração de contemporâneos e "sucessores" ao longo dos séculos. Esta inspiração extravasou o estrito domínio da poesia e alargou-se a outras áreas da cultura artística. Assim, encontramos os seus ecos na música que, curiosamente, se manifestam ainda em peças modernas ou contemporâneas. 

Deixamos, entre outros que cantaram Camões, alguns exemplos que demonstram a eterna atualidade dos grandes temas líricos camonianos : Amália Rodrigues cantou, entre outras, "Lianor" [aqui] de José Afonso  temos "verdes são os campos" [aqui], de José Mário Branco "Mudam-se os tempo, mudam-se as vontades"  [aqui].

Os espécimes abaixo, que fazem parte do acervo desta Biblioteca, exemplificam e refletem essa mesma inspiração que aliando a poesia à composição musical - bons condutores de emoções - , serviram não só para distinguir o Poeta Maior da literatura portuguesa como, em simultâneo, para homenagear os nossos soberanos, enquanto mecenas e representantes dos Portugueses.


Colás, Francisco Libânio (1830-1885)

Camões: Marcha triumphal a grande orchestra em Solemnização ao tricentenário de Luíz de Camões, principe dos poetas portugueses. Ded. a D. Luís I
1880, Pernambuco
Cotas e outras ref.: U’’’4599; 138-III-32; cat. Música n.º 563

Mus. Ms. BA 54-XII-89 [autógrafo]



Cesari, Pedro

A Camões: marcha fúnebre. Séc. XX, Olhão
Partes cavas do clarinete 2.º; cornetins 1.º e 2.º; trombones 1.º e 2.º (2) barítono 1.º; baixo e contrabaixo; cat. Música n.º 5236

Mus. Ms. 54-VII-30, n.º 37-45 [autógrafo]




Eusèbe, Lucas Séc. XIX, Monaco

Le dernier chant du Camoêns: ballade a grand orchestre.
Part.ª para orquestra.
Enc. em moiré azul e branco, letras a ouro. Ded. a D. Luís I. - Portada desenhada a pena a azul
Cotas e outras ref.: U’’’4631; 138-III-70; cat. Música n.º 774

Mus. Ms. 54-XII-52 [autógrafo]


Machado, João Gonçalves (Séc. XX, Olhão)

Alma minha gentil que te partiste … música para canto a 3 vozes
cat. Música 4024

Mus. Ms. 54-VII-22, n.º 7 [autógrafo]

Reuchsel-Dieu, Léon (1840-1915)

Les Lusiadas. Poëme symphonique. 1875, Lyon
Partitura para canto e orquestra, 3 vols. Op. 54
cat. Música n.º 2686

Mus. Ms. 54-XII-1 a 3 [autógrafo]

Cordeiro, João Rodrigues (1826-1881)

Hymno (…) à inauguração da estátua do grande Épico portuguez Luiz de Camões
1867, Lisboa,
Musica para piano

BA. 137-I-12, n.º 1
Frondoni, Angelo (1809-1891)

Luís de Camões
Música para canto c. acomp. de piano e letra L. A. Palmeirim.
In: antologia musical. Colecção (…) sobre poesias portuguesas, p. 27-39 Séc. XIX, London; W. Murray

BA. 137-I-9, n.º 136

 Cópia digital do exemplar da BNP [aqui]


Durand, L ()

Alma minha…
Música para canto c. acomp. de piano e letra em Português. e francês; Séc. XIX
Ded. a D. Luís I; cat. Música n.º 717
 
BA. 44-XV-68, n.º 82 [autógrafo]



Dia da Mãe

Em Portugal o dia da Mãe era inicialmente comemorado no dia 8 de Dezembro, dia da evocação da Imaculada Conceição. Para que esse dia ficasse, em exclusivo, para a comemoração de Nossa Senhora, na qualidade de Padroeira e Rainha de Portugal foi a data alterada, para o mês de Maio, mês de Maria, inicialmente no último domingo e, mais tarde, no primeiro, data que hoje celebramos.

Iniciando com umas gravuras de Nossa Senhora, que fazem parte de um dos álbuns da colecção Italiana de D. João V, a Biblioteca da Ajuda faz uma homenagem ao dia das Mães, publicando algumas imagens, de diferentes épocas e tipologias: 


Federico Barocci da Urbino

Biblioteca da Ajuda: 52-IXV-37

N.º de Inv. digital: 75243.153.01 (ADF) [aqui]








Vespasiano Strada (1582–1622)

Biblioteca da Ajuda: 52-IXV-37

N.º de Inv. digital: 75243.160.01 (ADF) [aqui]



Rainha Maria II (1819-1853) com o seu filho Pedro (1837-1861)
Gravura (litografia)

Palácio nacional da Ajuda, Inv. 56600

N.º de Inv. digital: 64096 (ADF) [aqui]








Infanta Maria Ana de Bragança (1843-1884) com a filha Matilde da Saxónia (1863-1933)

Palácio Nacional da Ajuda, Inv. 56600

N.º de Inv. digital: 64096 (ADF)  [aqui]



Rainha Maria Adelaide da Sardenha (1822-1855) com a filha Maria Pia (1847-1911), futura rainha de Portugal

Palácio Nacional da Ajuda, Inv. 64294

N.º de Inv. digital: 44789 (ADF) [aqui]







Rainha Maria Pia de Sabóia (1847-1911) 
com os filhos, Carlos (1863-1908) e Afonso (1865-1920)

Fot. Casa Fritz, porto

Palácio Nacional da Ajuda, Inv. 61218

N.º de Inv. digital: 44789 (ADF) [aqui]


Estas e outras imagens estão disponíveis através do Matrizpix [aqui

Recordamos hoje: A Infanta Maria Teresa de Bragança

retrato de Nicolas Taunay
Nascida no Palácio da Ajuda, em 1793, a filha mais velha do príncipe do Brasil, D. João e da Infanta de Espanha D. Carlota Joaquina, recebeu o nome de Maria Teresa Francisca de Assis Antónia Carlota Joana Josefa Xavier de Paula Micaela Rafaela Isabel Gonzaga de Bragança e Bourbon [v. Gazeta de Lisboa, n.º 18 e 19, abaixo] e o título de Princesa da Beira, na qualidade de primogénita que, pelo nascimento do infante D. Francisco, em 1795, deixa de lhe pertencer.

Em 1801, na sequência das invasões francesas, parte para o Brasil, com a restante família onde, em 1810, se casa com o Infante D. Pedro Carlos de Bourbon, seu primo.  Em 1811 nasce o seu primeiro, e único filho, Sebastião Gabriel e enviúva no ano seguinte, com apenas 19 anos.

Torna a casar, em 1838, com o seu tio e cunhado, Carlos Maria Isidro Benito, Conde de Molina e irmão de Fernando VII de Espanha, após este ficar viúvo da sua irmã Maria Francisca (1800-1834). Morre em Itália, Trieste, a 17 de Janeiro de 1874.

Na Biblioteca da Ajuda, entre outros documentos, temos:


Gazeta de lisboa n.º 18, 30 de Abril de 1793:

Anúncio do nascimento da infanta da princesa Maria Teresa...

BA. 170-I-172/68






Gazeta de lisboa supl. n.º 19, 10 de Maio de 1793:


Descrição pormenorizada do batizado da princesa recém nascida, na Real Capela oficiado pelo Cardeal Patriarca...
Foram padrinhos o avô, Carlos IV, Rei de Espanha, representado pelo infante D. Pedro Carlos, e a madrinha, Nossa Senhora, representada por D. Maria Francisca Benedita, princesa viúva do Brasil...

BA. 170-I-172/68



Manuscritos, autógrafos, referentes ao nascimento e batismo da Princesa da Beira:

1793 Abr. 02, Aranjuez 

Carta de D. Carlos IV, Rei de Espanha, para seu genro, o Príncipe do Brasil [D. João] agradecendo o convite para padrinho da criança [Princesa D. Maria Teresa] que vai ter D. Carlota [Joaquina] nomeando o Infante D. Pedro [Carlos] para o representar.
BA – 54-V-21, nº 5f (e envelope)










1793 Abr. 02, Aranjuez
Carta de Procuração passada por Carlos IV, Rei de Espanha, a seu sobrinho, o Infante D. Pedro [Carlos] para, em seu nome, servir de padrinho no baptismo do Infante ou Infanta [D. Maria Teresa] que der à luz sua filha, a Princesa do Brasil [D. Carlota Joaquina]. Assina Manuel de Godoy [Primeiro-Ministro de Espanha]
BA -  54-IX-23, nº 155


c. 1793 Abr. 29]
Carta da [Princesa D. Maria Francisca Benedita] para seu sobrinho, o Príncipe [D. João] expressando o seu desejo de ver a Princesa [D. Carlota Joaquina] e a menina [Princesa D. Maria Teresa] boas.
BA - 54-X-7, nº 158

1793 Maio 03, Aranjuez

Carta de Carlos [IV, Rei de Espanha] para [D. João], Príncipe do Brasil, felicitando-o pelo nascimento da Princesa da Beira [D. Maria Teresa]. 
BA – 54-V-21, nº 5h(e envelope)



1793 Maio 03, Aranjuez
Carta de [D. Maria] Luísa [de Borbón Parma] para seu sobrinho e genro, o Príncipe do Brasil [D. João] de felicitações pelo parto de D. Carlota [Joaquina, da Princesa da Beira, D. Maria Teresa].
                                                BA – 54-V-21, nº 9g (e envelope)
Mais:


Real Academia de la História: María Teresa de Braganza y Borbón [aqui]

Camões na BA: a edição de Os Lusíadas do Morgado de Mateus"


Os Lusíadas
: poema épico de Luis de Camões. – Nova edição correcta e dada à luz por D. Iosé Maria de Souza-Botelho, Morgado de Mattheus, Socio da Academia Real das Sciencias de Lisboa. Paris: na Officina Typographica de Firmin Didot, impressor do Rei, e do Instituto. – [10], CXXX, [2 br.], 413, [1 br., 10, [2 br.] p. : il., 12 estampas; 2º (35 cm).

BA. 50-XV-16, 50-XV-24 e 134-III-12

 







Uma das mais conhecidas edições de Os Lusíadas é a preparada – e paga – pelo Morgado de Mateus, publicada em 1817, em Paris, numa edição não comercial.

D. José Maria do Carmo de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos (1758-1825), 5.º morgado de Mateus, foi moço-fidalgo da Casa Real, senhor e administrador da Casa de Mateus e de outros vínculos, teve uma educação esmerada, sendo dos primeiros alunos inscritos no Colégio dos Nobres de onde lhe proveio o conhecimento dos autores clássicos e a preparação para o curso de Matemáticas na Univ. de Coimbra. A sua vida profissional manteve-o primeiro como militar, carreira que escolheu, sendo chamado depois a servir como conselheiro real e diplomata em diversos países, regressando a Portugal aquando da morte de seu pai e sequente encargo de gestão dos seus domínios. Iniciou a sua carreira em Paris, cidade a que regressou após o interregno em Portugal e onde escolheu passar os últimos tempos da sua vida dedicando-se a estudos literários e mormente aos "Lusíadas" de Luís de Camões. Ali casou pela segunda vez, com Adelaide Maria Fileul de la Bellarderie, viúva do conde de Flahaut, conhecida como Madame de Sousa entre os escritores da época, e ali pereceu.

A ideia de preparar uma edição de luxo desta obra, que materialmente fizesse jus ao elevado conteúdo que reconheceu neste marco literário, ocupou-o durante mais de uma década e sobre este seu propósito escreveu:

“O mais ardente patriotismo, e a minha admiração por Camões me fizeram unicamente entrar nesta empreza. Retirado dos negocios publicos, e do serviço do meu Soberano, e chegado ao outono da vida, com huma saude arruinada, pensei que na minha situação, não poderia fazer cousa mais agradável á minha Patria, do que dar-lhe huma boa edição daquelle Poema, que he o maior monumento da gloria nacional. Espero pois que Ella receba benignamente esta derradeira prova do amor que sempre lhe pro-/ p. XLVIII/ fessei, e professarei, podendo com a mão na consciência dizer-lhe, neste fim da vida:

Preclara conscientia sustentor, cum cogito me de Patria aut bene meruisse, cum potuerim, aut certè nunquam nisi divinè cogitasse. (Cicero ad Attic.)

Paris, Setembro de 1816.”

In Os Lusíadas do Morgado de Mateus, Paris: Firmin-Didot, 1817, pp. XLVII/XLVIII (“Advertência”)

Determinada a ideia procurou durante vários anos os melhores técnicos de impressão para a execução do projeto, vindo a estabelecer contrato com nomes importantes da pintura e gravura do seu tempo e um impressor que se dedicou à ideia do Morgado e com ele criou a edição de luxo de 210 exemplares, que foi toda oferecida. Sobre o processo de feitura da edição de 1817, lembremos também aqui as palavras do Morgado:

"Para que esta edição enfim fosse digna do nosso Poeta, e da Nação, empenhei Mr. Firmin Didot (que une á conhecida superioridade na sua arte, o amor das bellas-lettras, o conhecimento dos clássicos, e a cultura da poesia) a encarregar-se da impressão; o que elle fez com o maior desvelo, gravando, e fundindo novos caracteres na sua oficina typographica para esta edição, e vigiando elle mesmo comigo a sua execução, e correcção, ao ponto que espero se não achará hum erro typographico. Eu não /p. XLVII/ conheço edição, mesmo das melhores, que deles seja isenta.

Convidei Mr. Gerard [François G., barão, 1770-1837], membro do Instituto, famoso pintor de que a França se honra, bem conhecido na Europa pelo seu engenho, e juízo que distinguem as suas composições, e painéis históricos, para dirigir os desenhadores e gravadores de estampas que ornam esta edição; … ; encarregando-se elle mesmo do retrato de Camões.”

 In Os Lusíadas do Morgado de Mateus, Paris: Firmin-Didot, p. XLVI-XLVII (“Advertência”).

A Biblioteca da Ajuda possui 3 exemplares desta edição, diferenciados nas encadernações e restantes ornamentos onde, curiosamente,  se deteta 1 variação tipográfica (gralha) nos versos da p. 333 dos exemplares com as cotas 50-XV-24 e 134-III-12.

        

 Cortes decorados do ex. 50-XV-24








Encadernação do ex. 50-XV-16



Para saber mais sobre a edição: [aqui

Deixamos, abaixo, link para o registo da obra, da Prof. Anne Gallut-Frizeau, Le Morgado de Mateus, Editeur des Lusíadas, já publicada em português, profunda conhecedora de D. José Maria de Sousa, Morgado de Mateus, e da sua edição monumental "Os Lusíadas".

Registo da obra de Anne Gallut [aqui


FG & CPB @BA 

Recordamos hoje: D. Carlota Joaquina (1775-1830). Uma Rainha em tempos de mudança







No dia 25 de Abril de 1775, nascia, no Palácio Real de Aranjuez, D. Carlota Joaquina de Bourbon, Infanta de Espanha, que em 1785, no âmbito de uma política de reforço de laços diplomáticos e familiares entre as monarquias ibéricas, contrairia casamento com o Infante de Portugal, D. João de Bragança (17-1826). Com apenas dez anos de idade deixaria a sua terra natal, passando, a partir de então, a fazer parte integrante da família real portuguesa. A morte do filho primogénito de D. Maria I (1734-1816), o Príncipe D. José (1761-1788), em 1788, traria o casal para o primeiro plano da vida política portuguesa, agora como Príncipes do Brasil, Príncipes Regentes, a partir de 1792, e, mais tarde, Reis de Portugal, Brasil e dos Algarves, após a morte da soberana, ocorrida no Rio de Janeiro, em 1816.Poucos monarcas tiveram reinado tão atribulado, como o que calhou a D. João, agitado pelas ondas de choque da Revolução Francesa de 1789, e pelas sequentes invasões napoleónicas, que determinaram a transferência da corte para o Brasil, a propagação das doutrinas liberais, e, com elas, no regresso ao continente europeu, a imposição da assinatura das Bases da Constituição e da própria Constituição em 1822, documentos que ruíam os fundamento do edifício político e social do Antigo Regime, originando revoltas, golpes, polarizando partidos, promovendo cisões que atingiriam a própria família real.
written constitutions were a new idea”[1]. A ameaça à autoridade do rei assumia agora a forma de Constituições, documentos que significavam uma limitação escrita ao poder régio e, doravante, a supressão do elemento de legitimação divina da soberania que a partir de então transitava para a Nação, representada em órgãos nos quais assistiam os cidadãos, igualados em direitos. As leis deixariam de ser apenas ditadas pela tradição. A monarquia de absoluta passaria a constitucional. A assinatura das Bases da Constituição, em 1821, assim como da própria Constituição, em 1822, que integravam todas estas novas concepções de governo, eram “actos simbólicos” que significavam a “aceitação do novo regime. Assim entendiam os liberais e também os que se lhes opunham”[2].
D. João, acatou os ventos de mudança, orientando os seus passos de modo pragmático, com o objectivo de acalmar partidos e dissensões, ora jogando a favor dos liberais moderados, ora simulando apoiar as sublevações absolutistas, que sucederam. D. Carlota, contrariamente à atitude contemporizadora de seu marido, como fiel Bourbon, demonstrou que nada tinha esquecido, e que não abdicaria de nenhuma das prerrogativas, que por nascimento e de direito, considerava, lhe eram inerentes. Persistindo na defesa de uma monarquia intocada nos seus poderes, de legitimidade divina e não parlamentar, recusou, com veemência, jurar os documentos constitucionais.
O papel de D. Carlota na corte portuguesa e, essencialmente, os episódios que rodearam os acontecimentos da vida política nacional, a partir do início da década de 20 de oitocentos, concitaram visões contrastantes sobre a sua personalidade, muitos dos juízos críticos apresentando visões anedóticas que contaminariam a sua fortuna crítica, enquanto a visão dos seus contemporâneos foi sendo apagada pelo tempo.
No entanto, a soberana representava muitos dos paradoxos do tempo em que viveu, pois lograva conjugar uma disposição política conservadora, já que empenhada na defesa das estruturas sociais, políticas e religiosas de Antigo Regime, com uma abertura a novas ideias estéticas, artísticas e literárias, materializadas no seu legado cuja importância para o património nacional é, hoje, incontestável.
A Livraria de D. Carlota é a materialização dessa abertura de espírito, testemunho de uma curiosidade intelectual que a fazia dispor de obras dos mais diversos quadrantes ideológicos, algumas marcadas pelo Index censório. Uma apreciação rápida sobre aquele códice, “Catálogo da Livraria que foi de S. Mag.de a Senhora D. Carlota Joaquina de Bourbon” [51-XIII-7], pertencente ao acervo da Biblioteca da Ajuda, permite-nos descortinar autores ideologicamente tão diversos como os que teriam, voluntaria ou involuntariamente, influenciado o curso da Revolução em França, os “filósofos”, como J. J. Rousseau (1712-1778), com Contrato Social ó principios del derecho político[3], Condorcet (1743-1794), 
Esquisse de un tableau historique des progrés de l´esprit humain[4], Condillac (1714-1780), ou o Abade Mably (1709-1775), com diversos títulos; bem como os de sinal contrário, os contra-revolucionário ou “anti-filósofos”, como o Abade Nicolas Bergier (1718-1790), um dos mestres franceses da contra-revolução[5], autor que, segundo Masseau, “on peut compter parmi les plus talentueux adversaires des philosophes”[6], cuja obra faz a apologética da religião cristã, defendendo-a dos ataques que, considerava, lhe eram movidos por alguns dos filósofos, ou o Abade Barruel (1741-1820), autor que se dedicou à defesa da religião cristã e à contestação, pós Revolução Francesa, do papel das sociedades secretas, para o desmoronamento dos princípios que sustentavam a sociedade de Antigo Regime, ou o seu tradutor português, José Agostinho de Macedo, cuja “pena agressiva”[7] dedicou, na sua “polifacetada atividade literária”, (em poesia, teatro, epistolografia, filosofia, história, crítica, política, parenética, oratória fúnebre e periodística)[8], a condenar o sistema liberal e à defesa da Rainha, na sequência do processo que lhe fora movido, por parte dos parlamentares liberais, pela recusa em prestar juramento à Constituição, em Novembro de 1822.
Para além do pensamento político, encontramos uma diversidade de temáticas, sendo de realçar vultos da literatura, tais como F. R. Chateaubriand (1768-1848), com Genie du Christianisme ou Beautés de la Religion Chrétienne[9] e Os Martyres ou Triumpho da Religião Christaa[10], nas quais faz a apologética do Cristianismo em termos inovadores, entre outros autores, que testemunham uma vontade de conhecimento, sem limites. Em síntese, aquele inventário reflecte uma gama de interesses múltiplos e actualizados, já que uma boa parte das obras são de edições contemporâneas da soberana.
                    
 Capa com rótulo com o título sobre pele, com ferro a ouro, sobre papel marmoreado; folha de rosto do Catálogo da Livraria que foi de S. Mag.de a Senhora D. Carlota Joaquina de Bourbon, ano de 1831, Biblioteca da Ajuda, ms. 51-XIII-7 
O “Catálogo da Livraria que foi de S. Mag.de a Senhora D. Carlota Joaquina de Bourbon”, cuja data, 1831, é a mesma de outros inventários de livrarias que se encontram na Biblioteca da Ajuda, relativas a diversas individualidades, de entre as quais, D. Maria Francisca Benedita (1746-1829), e ainda de diversas personalidades objecto de sequestro patrimonial, na sequência do seu banimento político, depois de 1828[11], relacionam-se com a incorporação de diversos espólios no âmbito das medidas tomadas no reinado de D. Miguel (1828-1834), com o objectivo de reverter o empobrecimento da Real Biblioteca Particular, muito desfalcada pelo facto de a quase totalidade do seu acervo ter permanecido no Brasil.
A ligação de D. Carlota aos livros e à leitura fica agora marcada, de um modo perene, no conjunto de obras que agora são parte do acervo da Biblioteca da Ajuda.
Talvez não por acaso no Retrato de D. Carlota Joaquina, sem autoria determinada, pertencente às colecções do Palácio Nacional da Ajuda, (inv. 41367 PNA) a soberana se faça representar rodeada de atributos culturais, como Princesa ilustrada, nele se destacando um livro onde pousa a pena, com a inscrição “VIRT E SAB”, na lombada, virtude e sabedoria que o livro materializa, bem como a ligação da soberana ao universo literário.















Retrato de D. Carlota Joaquina, óleo sobre tela, inv. 41367 PNA. Fotografia João Krull.





 









Detalhe da pintura Retrato de D. Carlota Joaquina
óleo sobre tela, inv. 41367 PNA. Fotografia João Krull.




Documentação de D. Carlota Joaquina na biblioteca da Ajuda[aqui]

Mafalda M.B.@BA 

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NOTAS: 

Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor: "Orlando Furioso": o exemplo de um livro com história

A Biblioteca da Ajuda assinala este dia com uma obra que é simultaneamente exemplar da sua colecção, paradigma da poesia épica / romance de cavalaria e do processo tipográfico associado a edições antigas: Orlando Furioso de Ludovico Ariosto, Lião, 1561.

Estamos perante um precursor dos grandes épicos renascentistas com o conteúdo associado aos romances de cavalaria medievais, às gestas de heróis trágico-cómicos que cantam os feitos militares de cavaleiros cujo percurso é marcado por amores cujo destino não está nas suas mãos. Publicado pela primeira vez em 1516, em Ferrara, teve uma 2ª edição muito próxima, em 1521, onde se apresentava em 40 cantos, em oitava métrica, e com uma marcação expressa de coloquialidade através de diálogos e de expressões de subjetividade visíveis nos argumentos que introduzem os cantos. A 3ª edição, 1532, acrescenta 6 novos cantos e constitui um aperfeiçoamento estilístico do longo poema, além do acrescento de novas cenas narrativas e personagens. É considerada a edição completa, com os 46 cantos que desde aí se publicam, i. é, cerca de 5.000 novos versos. Doze anos depois, mais 5 cantos são acrescentados num apêndice – Cinque canti – que prenuncia uma sequência da história principal, recuperando e engradecendo personagens de antecedentes literários, como M. M. Boiardo, que na origem eram apenas referidos. Esta associação de um estilo formal clássico e aparentemente rígido é posto ao serviço de narrativas que diversificam o caracter épico dos seus antecessores clássicos, introduzindo personagens e situações de comédia e cada vez mais associado a um texto cenográfico.

As múltiplas edições do Orlando Furioso expressam o fenómeno que as originou: as edições esgotaram… indo de encontro a uma estética do gosto renovada neste renascimento dos clássicos e das crónicas medievais em releitura criativa. Ariosto – cujo pendor artístico para a escrita foi muito tempo adiado por obstáculos da vida – dedica-se durante uns anos a criar uma resposta / complemento literário à obra inacabada Orlando Innamorato de Matteo Maria Boiardo (1441-1494), cuja publicação póstuma, em 1495, teve múltiplas edições no séc. XVI. Das mais de duas centenas de edições no séc. XVI da obra de Ariosto identificadas na bibliografia italiana (Edit 16), uma larga parte é impressa em Veneza (à época “a sereníssima república de Veneza que começava o seu declínio com o fim do monopólio comercial no mediterrâneo) onde se multiplicaram as edições e os seus impressores.


O exemplar da BA que aqui trazemos do 
Orlando Furioso é imediatamente destacado de todos os outros pelas suas dimensões: literalmente uma edição de bolso, provavelmente aparada mas que não terá alterado grandemente a sua pequenez: 11 cm X 7 cm.






No entanto, a encadernação, quase minúscula, protege 1419 páginas correspondentes a 2 partes (40 + 6 cantos + 5 canti) sequenciadas numericamente e a um extenso vocabulário geográfico e onomástico não paginado.             
      

Mantém uma estrutura fixa, com ‘declaração’/argumento a anteceder cada canto e uma gravura alusiva à narrativa poética que ali começa:
 


         


O ex. escolhido apresenta-se mutilado, o que levou à cópia manuscrita das pp. em falta. Esta particularidade é clarificada pela sua proveniência histórica: livro de ensino num colégio jesuíta com uma livraria pública, S. Roque, poderá ter servido o Colégio dos Nobres e sido incorporado na Biblioteca por esta via. Particular é também o facto de ser uma doação de Lopo Soares, um ainda anónimo bibliófilo do séc. XVI (provavelmente) que é recordado num número relativamente alargado dos livros de S. Roque que chegaram à Biblioteca Real.  

 





          









A encadernação, em pergaminho simples, que terá sido reencadernada para a inclusão de folhas em branco iniciais com a cópia manuscrita, remete também para este ambiente de biblioteca escolar pública e indiretamente para a atualidade do ensino jesuíta que emparelha o conhecimento das fontes clássicas linguísticas e das obras ‘modernas’ que se tornaram clássicas com conteúdo narrativo atraente para os jovens. 


Por último, evidenciamos o trabalho tipográfico e iconográfico (xilogravuras) deste exemplar, fruto do trabalho de um impressor humanista, Guillaume Rouillé (1518-1589) cuja aprendizagem decorreu, sem espanto, em Veneza junto de Gabriele Giolito de' Ferrari (c. 1508 – 1578).







A divulgação exponencial desta obra no mercado livreiro europeu, e principalmente espanhol e francês, é um dos factores que explicam a sua vasta influência em autores e obras do património clássico mundial, como Cervantes – que criticou a 1ª tradução espanhola logo em 1550 -, Torquato Tasso, Shakespeare, Voltaire e mesmo Camões. A sua permanência destacada na história da literatura europeia, as múltiplas traduções, a influência sobre o teatro, principalmente francês, atestam a sua caracterização como obra prima da literatura mundial, exemplar também da especificidade dos impressos antigos.

FG@BA