Dia Mundial da Poesia: Entre a Poesia e a Filosofia: Alexander Pope, Martha Blount e a Cultura Literária na Inglaterra do Século XVIII

Por ocasião do Dia Mundial da Poesia, celebrado a 21 de março de 2026, relembramos a criação poética enquanto forma de expressão artística cujo impacto transcende a esfera literária, influenciando de modo significativo a cultura e a sociedade. Neste contexto, no âmbito da tradição literária inglesa, evocamos Alexander Pope (1688–1744), cuja obra, marcada pelo rigor formal e pela crítica sagaz, constitui um dos mais notáveis exemplos do neoclassicismo inglês no século XVIII.

Col Icon. BA 827
Nascido em Londres a 21 de maio de 1688, Alexander Pope enfrentou desde a infância problemas de saúde que lhe deixaram sequelas físicas permanentes. Descendente de uma família católica num período de discriminação religiosa, viu-se impedido, devido à legislação anticatólica existente da época, de frequentar universidades como Oxford ou Cambridge, dedicando-se de forma autodidata ao estudo dos clássicos, particularmente de Homero, Virgílio e Horácio. Esta formação refletiu-se nas suas obras, caracterizadas pela mestria na sátira, pela precisão formal e pelo uso do verso heroico.

Autor do poema filosófico An Essay on Man, publicado em quatro epístolas (1733–1734), o poeta reflete sobre a condição humana, o papel do homem no universo e a relação de equilíbrio entre ordem e caos. É nessa mesma obra que surge a sua expressão “Hope springs eternal in the human breast” (An Essay on Man, epístola I, p. 56, linha 95),  que exprime a ideia de que a esperança é eterna no coração humano, numa observação sobre a constância da esperança como traço da natureza humana.

Ensaio sobre o homemepístola I, p. 56, linha 95

Apesar de uma relação tensa com o meio literário da época, Alexander Pope notabilizou-se ainda pela tradução da Ilíada de Homero e pela versão inglesa da Odisseia, realizada sob a sua direção com a colaboração de outros autores. 

Enquanto poeta, algumas das suas mais belas poesias são dedicadas a Martha Blount (1690-1762), figura ativa nos círculos literários da época, sua confidente, por quem desenvolve uma forte ligação.

Col Icon. BA 817
A natureza deste vínculo tem sido objeto de debate na historiografia literária, sendo geralmente caracterizada como uma relação de grande proximidade afetiva, sem consenso quanto à sua eventual dimensão amorosa. Ainda assim, Martha Blount foi uma das presenças mais constantes na vida do poeta. Demonstração do apreço que lhe dedicava foi o facto de lhe ter legado uma parte significativa dos seus bens, incluindo uma quantia monetária substancial e o usufruto de rendimentos provenientes da sua propriedade após a sua morte, em 1744.





A Biblioteca da Ajuda, para além dos retratos de Alexander Pope (registo BA 827) e de Martha Blount (registo BA 817), testemunhos iconográficos destas figuras da literatura e cultura do século XVIII, conserva no seu acervo a tradução para português da obra An Essay on Man, por Francisco Bento Maria Targini (1756-1827), Visconde de São Lourenço, tradutor e literato, que inclui uma dedicatória ao Rei D. João VI: 

Ensaio sobre o homem de Alexandre Pope / traduzido verso por verso por Francisco Bento Maria Targini, Baraõ de Saõ Lourenço... - Londres: na Officina Typographica de C. Whittingham, College House, Chiswick, 1819.

3 vols. - Dedicatória a D. João VI, com as armas reais.  No anterrosto gravura representando Francisco Maria Targini assin. «H.J. da Silva inv. et del.» ; «G. F. Queiroz sculp. em 1815». Gravura entre p. 31 e 32 representando Alexandre Pope assin.: «Jervas pinxit» ; «J. H. Robinson sculp.»

BA 62-VI-23 a 25



Gravuras de Francisco Maria Targini e Alexandre Pope

     

Relembrar a vida e obra do poeta Alexander Pope é, simultaneamente, compreender aspetos da cultura literária inglesa desta época, mas também de como as redes de relações humanas se entrelaçam na construção do património cultural.

Desafiamos os leitores a (re)descobrir a sua obra, refletindo sobre a intemporalidade dos seus textos e a sua relevância no contexto contemporâneo

TM&BA

Natal: Uma Alegoria à Maternidade

Oficio de la Virgen Maria                

                              

               

           Oficio de la Virgen Maria.... - Madrid: en la imprenta da Compañia, 1797. BA. 53-VI-1

A Biblioteca da Ajuda, herdeira da Real Biblioteca Particular, possui, no seu muito rico e diversificado acervo, um conjunto de obras com superlibros, marcas relevantes de anteriores proprietários, ou de ligação a encomendadores, ou patrocinadores das edições e que sinalizam as aquisições, doações, ou incorporações que ocorreram ao longo da sua história.

O exemplo que hoje apresentamos - Oficio de la Virgen Maria, livro de Horas, impresso em Madrid, em 1797, concentra toda a riqueza formal na encadernação cuidada, a marroquim vermelho gravado a seco e com ferros a ouro, enquadrando superlibros, com as iniciais "R" e "C" encimadas por coroa fechada, gravadas a ouro, uma na pasta anterior e outra na posterior, simbólica heráldica que nos remete para Carlos IV (1748-1819), rei de Espanha. Nada sabemos quanto à forma como a obra foi incorporada nas colecções da Biblioteca Real. No entanto, dadas as relações familiares próximas entre as duas casas reinantes, a de Espanha e a de Portugal, é provável que se tenha tratado de uma oferta do monarca espanhol a seus parentes da corte régia portuguesa. Quer a D. Maria I (1734-1816), sua prima direita, ou a sua filha D. Carlota Joaquina (1775-1830), à data da impressão do livro, Princesa do Brasil. 

Pastas, anterior e posterior, com as iniciais "R" e "C" encimadas por coroa fechada dentro de molduras com motivos vegetalistas, enquadradas por cercaduras com elementos florais, cantos, contra cantos e cortes dourados, num tipo de estilização  comum nas encadernações espanholas:

No Oficio, a entrada de cada episódio da Vida de Maria e de seu filho Jesus, é ilustrada com gravuras de autoria diversa, entre outros de Mariano Salvador Maella (1739 - Madrid 1819), pintor de Câmara do Rei Carlos IV, gravadas por Manuel Salvador Carmona, e ainda de autores, de menor relevo. De entre as imagens criteriosamente colocadas, introduzindo cada oração, destacamos a alusiva à Natividade que reflete a aprendizagem de Maella no ambiente artístico romano, prévia à sua nomeação como pintor da corte régia de Espanha.

A imagem de Jesus Menino, nas palhinhas, debaixo do olhar enlevado de sua Mãe, e da presença protectora de S. José, rodeado de pastores, e de animais domésticos, encimada por anjos celestiais que iluminam a cena, de invenção de Maella, replica a tradição milenar, de colocar Jesus entre os mais humildes, iconografia que prossegue com várias declinações ao longo dos séculos e que Maella reproduz a partir dos autores do barroco italiano, nas obras dos quais o artista se deixara influenciar. Imagens que são o reflexo do seu périplo de aprendizagem romano e da sua presença activa junto de Anton Raphael Mengs (1728-1779), pintor-académico que Carlos III (1716-1788) chamara para a Corte de Madrid, aí divulgando o gosto pela estética classicista romana.

Este livro do acervo da BA, para além de testemunho dos laços familiares, artísticos e estéticos que uniam as duas monarquias ibéricas e que se reflecte nas obras de arte que possuíam e nas que ofereciam com o objectivo de reforçar alianças políticas e afectivas, algumas das quais enriquecem as colecções patrimoniais nacionais, é ainda a expressão da matriz ideológica e imagética partilhada pelo Sul Católico. 

MMB@BA

AVISO: tolerância de ponto

Informamos os nossos Leitores que na sequência da tolerância de ponto concedida pelo Governo (Despacho n.º 15085-A/2025) e pela decisão do Conselho de Administração da Museus e Monumentos de Portugal (MMP), a Biblioteca da Ajuda estará encerrada nos próximos dias 24, 26 e 31 de dezembro de 2025 e 2 de janeiro de 2026.

1794: o incêndio da Real Barraca, "desvelos" e "providencias" dos bibliotecários da Livraria Régia

A Gazeta de Lisboa, no seu número 45, suplemento XLV, datada de 14 de Novembro de 1794, dava notícia do incêndio que ocorrera no Real Palácio da Ajuda, no dia 10 daquele mesmo mês. Lavrara o mesmo “com tal rapidez” que “a pezar [sic] das maiores diligencias” não fora possível “impedir que ardesse toda a parte do Palacio que fica ao Nascente”, esclarecendo o redactor, ter resultado “daqui huma perda muito consideravel, sem embargo de se terem salvado muitos dos móveis”[1].

GALLI BIBIENA, Giovanni Carlo, 1717-1760. [Planta da Real Barraca] [entre 1755 e ca 1760?], desenho: tinta da china e aguadas. Dimensões 131x72,5 cm. [aqui]

À sucinta notícia sucedia, no número seguinte, datado do dia 15, uma informação mais detalhada, e na qual se destacava que do estrago inevitável que se fizera no Paço velho, escapara “com admiração geral, toda a Real Livraria”, “sucesso feliz” que se ficara a dever ao “desvelo e acertadas providências do R. Doutor Feliciano Marques Perdigão”, seu dedicado bibliotecário.

Escrevia Francisco da Cunha Leão que “Poucas bibliotecas sofreram destruição e história tão turbulenta como a Biblioteca da Ajuda”[2]. Se as perdas com o terramoto de 1755 tinham sido incomensuráveis, entre outras, para a colecção régia de livros, o incêndio de 1794 poupara-a. No entanto, a chegada das tropas napoleónicas em 1807 e o embarque da Família Real para o Brasil, determina um novo capítulo na sua atribulada história. Encaixotada com as preciosidades régias partiria rumo ao Novo Mundo, constituindo doravante o núcleo fundador da Biblioteca do Rio de Janeiro.

Relação dos caixotes com livros pertencentes às Reais Bibliotecas embarcados para a corte do Rio de Janeiro em 25/02/1809[3].

As plantas que a BN guarda daquele que era o Paço Velho da Ajuda mostra-nos, com nitidez os espaços que a Real Livraria (n.º 23) ocupava naquele complexo habitacional. Salvara-se do incêndio porque, contrariamente ao restante edificado, construído em tabique de madeira, fora, sabiamente, erguido em alvenaria de pedra e cal, tal como o espaço anexo, do “Tizouro”, de onde, eventualmente, se salvariam alguns moveis[4].

 

O incêndio de Novembro de 1794 apagou grande parte do importante testemunho da vivência da corte do rei D. José I e da rainha D. Maria I. Contudo, apesar da sua “aparência mesquinha e inusitada para uma residência regia”, a “Real Barraca” encerrava um significativo espolio de artes decorativas”[5], às quais devemos juntar as preciosidades biblioteconómicas guardadas na sua Livraria, que na planta surge assinalada com o nº 23.

De todos estes incidentes se reergueria, no regresso da Família Real ao continente europeu, uma “nova” Biblioteca, mediante compras, incorporações de fundos monásticos, doações de mestres régios e bibliófilos, rainhas e princesas, políticos banidos e exilados[6]. 

 






Cancioneiro da Ajuda, proveniente do Colégio dos Nobres, cuja livraria foi, em grande parte, incorporado na Real Biblioteca da Ajuda, após a extinção daquela instituição de ensino[7].



De entre as aquisições efectuadas com o objectivo de suprir as perdas causadas pelo terramoto de 1755, na Real livraria, destaca-se a da livraria do Conde de Redondo, pela raridade de alguns dos espécimenes que integrava. Destacamos alguns dos manuscritos daquela colecção, e que tendo rumado para o Brasil, regressariam a Ajuda, após 1821, com o conjunto dos manuscritos da livraria régia.



 







Foral da Vila do Touro, anteriormente pertencente à Livraria do Conde de Redondo. BA 52-XIII-27


Apesar de todas as vicissitudes pelas quais passou a Livraria régia foi sistematicamente reerguida e as suas perdas colmatadas. Como deixou escrito um dos seus últimos directores, a história da Biblioteca da Ajuda “(…) longa de pequenas e grandes tragédias, de trabalho insano, surdo e dedicado de gerações de bibliotecários, arquivistas e historiadores, de dezenas de milhares de livros perdidos, recuperados e emigrados (…)”[8] detém, na actualidade, um acervo de importância histórica e patrimonial de valor incalculável.

 MMB@BA


[1] BA 170-I-172/69. Disponível em: https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/GazetadeLisboa/1749/Novembro/Novembro_item1/index.html

[2] Cunha Leão, Francisco, “A Biblioteca da Ajuda: das origens à actualidade”, Cadernos BAD, Lisboa, 1992, p. 196.

[3] Registo do Expediente do Particular, ANTT CR 2979, fl. 36v.

[4] Bastos, Celina, A Real Barraca no sitio de Nossa Senhora da Ajudo e as encomendas da Casa Real: alguns elementos para o seu estudo”, Revista de Artes Decorativas, Universidade Católica, 2007, pp.193-228. Disponível: em https://revistas.ucp.pt/index.php/revistaartesdecorativas/issue/view/977.

[6] Barros, Mafalda de Magalhães, “Banidos os proprietários das livrarias mas não os livros”, linha Editorial Estudos, Palácio Nacional da Ajuda, 2024. Disponível em: https://www.palacioajuda.gov.pt/paginas/69c4ddee-banidos-os-proprietarios-das-livrarias-mas-nao-os-livros

[7] Idem, Idem.

[8] Cunha Leão, Francisco, obra cit., 1992, p.

Aviso: serviço de leitura encerrado

Informamos os nossos leitores que por actividade internaamanhã dia 28 de outubro o serviço de leitura da  Biblioteca da Ajuda encerra às 13h00.

Agradecemos a compreensão dos nossos leitores