Neste dia...

No Real Paço da Ajuda, nasceu, às duas horas da madrugada, de 31 de julho de 1865, o Infante D. Afonso Henrique Maria Luís Pedro de Alcântara Carlos Humberto Amadeu Fernando António Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis João Augusto Júlio Valfando Inácio de Saxe-Coburgo-Gotha e Bragançade Saxe-Coburgo-Gota e Bragança, filho dos reis D. Luís I e D. Maria Pia. Era o segundo filho do casal real, irmão mais novo do futuro Rei D. Carlos I, e recebeu ao nascer o título de Duque do Porto (3º) —  distinção real atribuída, por tradição, aos segundos filhos dos monarcas.

Ao contrário do irmão, não lhe cabiam as responsabilidades de herdeiro do trono, pelo que D. Afonso seguiu uma carreira militar. Ao longo da vida, viria a acumular diversos cargos e honras: foi o 24.º e último Condestável de Portugal, o 109.º governador e o 51.º e último Vice-Rei da Índia Portuguesa, entre outros.

 

Figura discreta, mas sempre presente na vida pública, o Duque do Porto é igualmente recordado, em em fotografias, ao volante de um dos seus automóveis, símbolo de uma modernidade que despontava em Portugal. 


BA reg. 5179













A Biblioteca da Ajuda, em jeito de homenagem deixa [aqui] a documentação variada que faz parte do seu acervo.

Manuscritos fora da Estante: Encontros com o Património | 21 de julho 2026 | 15h00 | 2.ª sessão

Após o sucesso da primeira sessão, do ciclo de encontros “Manuscritos fora da estante – Encontros com Património” [aqui], a segunda sessão continua a 21 de julho, dando continuidade a uma viagem pelo mundo dos manuscritos e das histórias que eles ainda têm para contar, pela voz dos Académicos que divulgam, assim, o conhecimento por detrás da investigação.

Nesta sessão de 21 de julho, Elena Lombardo (FLUL/CLUL-Filologia), Joana Gomes (FLUP/IF) e Filipe Alves Moreira (UAb/IELT-UNL Polo UAb) voltam a reunir-se na Biblioteca da Ajuda para falar dos seguintes manuscritos: o ms. av. 54-IX-32 (73) — uma cópia do Livro de Linhagens do Deão; o códice 47-XIII-11 (Livro Velho de Linhagens); e o códice 51-II-20, que preserva um testemunho do Novo Memorial do Estado Apostólico de Paulo de Portalegre (séc. XV), bem como, uma narrativa de teor sebastianista.

24 de Junho: Dia de S. João Baptista e do Onomástico de D. João VI

Na corte portuguesa do século XVIII, os onomásticos (dias dos santos correspondentes ao nome da pessoa) eram ocasiões de grande significado, frequentemente celebrados com tanto ou mais destaque do que os aniversários. O dia de São João Batista, a 24 de junho, assumia especial importância para o Infante D. João, futuro João VI.

Assim, o dia de São João era uma ocasião de homenagem ao infante, que viria a marcar um dos períodos mais decisivos da história luso-brasileira.

A Biblioteca da Ajuda conserva na col. de manuscritos avulsos, entre muitos outros, dois manuscritos, autógrafos, de D. Maria Luísa Parma e do Rei D. Carlos IV, de Espanha, dirigidas à Rainha D. Maria I, a assinalarem  a ocasião:


1786 Jun. 20, Aranjuez

Carta de [D. Maria] Luísa [de Parma] para sua prima [D. Maria I] felicitando-a pelo feliz parto de D. Mariana [Vitória, do filho D. Pedro Carlos] e pelo próximo dia de S. João, onomástico do Infante [D. João].

Ms. Av. 54-V-20, nº 7g





















1791 Jun. 24, Aranjuez

Carta de D. Carlos IV, Rei de Espanha, para sua prima [D. Maria I] enviando felicitações pelas solenidades dos Santos patronos do Príncipe do Brasil [D. João] e do neto [Infante D. Pedro Carlos].

MS. AV. 54-V-21, nº 4g




Aviso: Leitura encerrada

Informamos os nosso leitores que, devido à preparação e realização de um evento oficial nesta Biblioteca, o serviço de leitura estará encerrado nos dias 22 de Junho a partir das 14h00, 23 de junho todo o dia e 24 de Junho até às 13h00. 

 Agradecemos a compreensão dos nossos leitores

Aconteceu na Biblioteca da Ajuda...




Ontem a Biblioteca da Ajuda acolheu a sessão académica, orientada pelos especialistas Elena Lombardo (FLUL/CLUL-Filologia), Joana Gomes (FLUP/IF) e Filipe Alves Moreira (UAb/IELT-UNL Polo UAb), que guiaram uma audiência alargada e motivada através de três códices medievais exemplares, do acervo desta casa.




Foram assim apresentados e explorados o  Cancioneiro da Ajuda e o Livro de Linhagens do Conde D. Pedro a ele apenso; Chronica del Rey D. Joaõ II / Garcia de Resende, cópia quinhentista por Álvaro do Couto de Vasconcelos [BITAGAP - Manid 3983], 47-XIII-26; miscelânea histórica, cuja primeira parte "Jornada de Afriqua del Rej Dom Sebastiaõ" é uma fonte inédita para o estudo sebástico, 51-IX-22.

Além da descrição codicológica, de questões levantadas pela materialidade das 'crónicas', ficámos a saber que as 3 cópias da BA têm características distintivas que as destacam dos outros exemplares conhecidos. Sabia que...



1 - o L
ivro de Linhagens do Conde D. Pedro [ou Livro Velho de Linhagens], apenso ao Cancioneiro da Ajuda, contém um texto (mal) raspado que narra um episódio inédito da vida de D. Afonso Henriques, o qual está ausente das outras cópias?




2 - a crónica de D. João II foi finalizada 2 vezes, tendo sido acrescentadas várias 'historietas' da tradição oral não constantes das outras cópias conhecidas? 

  

  




3 - a leitura / estudo da Jornada de África de D. Sebastião mostrou já a inclusão de múltiplas referências sócio-etnográficas e económicas de uma testemunha "de visu" - por enquanto, anónima - que trazem nova luz a questões levantadas pela documentação deste período em várias áreas científicas, relativamente a este episódio marcante da história portuguesa.


A Biblioteca da Ajuda concretizou, assim, um dos seus desígnios patrimoniais  fundamentais de articulação concreta e prática com o universo académico, acolhendo  um público interessado nas fontes primárias que alimentam a nossa memória colectiva, em contacto com especialistas nas diferentes áreas dos manuscritos medievais.

A Biblioteca da Ajuda foi ontem mais uma vez um espaço de memória viva!

   







“Um saber de experiência feito… uma língua para o saber”

Comemora-se hoje, desde novembro de 2019, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, um reconhecimento da abrangência geográfica do português e da sua primazia histórica na globalização, tornando-a numa das “línguas da comunicação global”.

 A Biblioteca da Ajuda, guarda na sua coleção vários exemplares que testemunham esta ligação histórica das viagens portuguesas ao desenvolvimento do conhecimento científico e à escolha do português como seu instrumento de expressão e sistematização. De entre várias possíveis, o Colóquio dos simples e das drogas e das cousas medicinaes da India (…), por Garcia da Orta, impresso em Goa, por Ioannes do Endem em 1563, destaca-se pela sua anterioridade e características próprias, desde logo o seu local de impressão.

Estruturado em 58 diálogos entre Ruano e Dr. Orta, descreve com grande exatidão plantas, ervas e frutos da Ásia, principalmente da Índia, insistindo na premissa, que fundamenta o método experimental, da observação direta sobre o conhecimento da autoridade e na recolha tradicional, junto de boticários e médicos indianos, das suas propriedades terapêuticas e formas de aplicação. À época da publicação, Garcia da Orta estava já estabelecido na metrópole indiana há mais de 30 anos e era um elemento importante da comunidade administrativa portuguesa e local. 





A primeira parte da sua vida na Índia, acompanhando Martim Afonso de Sousa (c. 1500 – 1571), é passadas nas expedições militares para onde este é enviado e que aproveita para registar observações. Médico dos vice-reis e amigo dos príncipes locais, deverá ter ensinado no Real Hospital de Goa, instituição que é exemplar do progresso médico e do seu ensino. Os Colóquios remetem para esta experiência de vida, referindo notas etnográficas dos locais onde as plantas foram observadas e apontamentos literários de carácter auto-biográfico.

A publicação da obra em Goa, na tipografia ali existente no Colégio de S. Paulo dos jesuítas, que era inicialmente destinada à Etiópia, e em português poderia ter levado a obra para o caminho do esquecimento científico renascentista, onde proliferam outros textos nesta linha, embora de publicação posterior. É o caso de Cristovão da Costa (1525-1596), auto-denominado o Africano, que em 1572 publica uma obra muito próxima da de Garcia da Orta, em Burgos, ou de Nicolás Monardes que faz o mesmo, em 1569, para o mundo natural das Índias Ocidentais, ou Américas.

   Exemplar BND [aqui]   

Canela

Tamarindo
                                                            


                                                                   


O destino da 1ª edição dos Colóquios é determinado pelo acaso de um naturalista, Charles l’Ecluse (1526-1609), empreendendo “viagens de instrução” por vários países da Europa e, devido a estas, ter-se decidido a empreender expedições naturalistas que o trouxeram à Península Ibérica, onde se manteve durante algum tempo a ‘herborizar’, tendo contactado com a obra de Garcia da Orta em Lisboa, em 1564 ou 1565, resolveu traduzi-la para latim e publicá-la. Este empreendimento não correspondia a uma tradução direta da obra de Orta, mas sim a um resumo, um ‘Epítome’ desta, de onde desapareceram as marcas de coloquialidade e as digressões literárias. Também a sistematização a que sujeitou as observações e conclusões e a adição de imagens contribuíram para um acolhimento muito maior do texto por um público atento e curioso A 1ª edição é de 1569, tendo tido 5 edições nos anos seguintes:

Aromatum et simplicium aliquot medicamentorum apud Indos nascentium historia: Primum quidem Lusitanica língua per Dialogos conscripta, D. Garcia ab Horto, Proregis Indiae Medico, auctore Nunc vero Latino sermone in Epitomen contracta, & iconibus ad uiuum expressis, locupletioribusque, annotatiunculis illustrata a Carolo Clusio Atrebate.

A BA guarda na coleção de Cimélios a edição de 1579 (3ª edição) que reúne num volume portátil os 3 grandes nomes da investigação naturalista tropical, com as suas ligações à farmacopeia e terapêutica, em texto latino: Garcia de Orta (1. resumo dos Colóquios e 2. Anotações de l’Écluse aos mesmos) Cristovão da Costa e Nicolòs Monardes.

A obra de divulgação de Carolus Clusius, como era conhecido, com a publicação em latim de 3 textos ibéricos e, principalmente, o português de Goa, trouxe ao diálogo europeu uma concretização do novo método das ciências experimentais e que terá a sua sistematização no Novum Organon, de Francis Bacon e nas experiências físicas de Galileu sobre o movimento. O contributo da obra de Orta para o progresso da Ciência e a sua revolução no séc. XVII é inegável. A sua prática de vida e registo, uma enorme erudição e o pressuposto da procura da verdade na Natureza sobre a autoridade são marcas da modernidade que o renascimento imprimiu à criação de uma ciência que terá um novo paradigma nos 2 séculos seguintes. 

(...). Garcia da Horta estava de posse d'um methodo scientifico rigoroso e arvorava a observação em criterio infallivel nas sciencias naturaes. (…) emancipa-se do respeito pela auctoridade e a sua divisa é esta: eu vi. Tambem o meio em que vivia dava-lhe uma certa liberdade de pensar e de exprimir o seu pensamento. Em Hespanha – é elle que o diz – certamente não se atreveria a afirmar coisa alguma contra os /p. 281/ gregos e nomeadamente contra Galeno, (…). Não me ponhaes medo com eles, eu vi. [Nota: Coloquio IX, do benjuy, I, p. 105] – LEMOS, Maximiano, Historia da Medicina em Portugal. Doutinas e instituições. 2 vols. – Lisboa: Manoel Gomes, editor, MDCCCXCIX [1899] . Vol. I pp. 280-281 – BA 39-XI-72

   

Edição magna da obra de l'Écluse, publicada em 1605 em Antuérpia, com os textos por ele traduzidos.

E o primeiro destes livros da ciência natural impresso está escrito em português, publicado numa colónia longínqua do que era “o Orbe lusitano” na segunda metade de quinhentos, por um homem que encarnou a erudição e a vida aventurosa como premissas para a análise do mundo natural à sua volta, exemplar dos nossos navegadores, colonos e cronistas da Índia e do seu contributo para as novas fronteiras da ciência europeia que então se iniciava.

Para saber mais: 

Biografia (exemplar da BA 116-III-46)

Avaliação e contexto científico de época

Edição anotada e dirigida pelo conde de Ficalho: 

Colóquiosdos Simples e Drogas da Índia por Garcia da OrtaEdição publicada por deliberação da Academia Real das Sciencias de Lisboa. Conde de Ficalho, dir. e anot. Lisboa: Imprensa Nacional, 1981

BA 39-XI-70 

FG@BA