D. Isabel de Portugal (1503-1539): comemorações dos 500 anos do seu casamento com o Imperador Carlos V

Col. Museu Nacional de Arte Antiga

Filha de D. Manuel I e de D. Maria de Castela, filha dos Reis Católicos, D. Isabel nasceu a 24 de outubro de 1503, no Paço da Alcáçova, no Castelo de São Jorge. Considerada na época uma das mulheres mais belas e cultas da Europa, estava destinada, através do casamento com o primo Carlos V, a desempenhar um papel político de grande relevo, contribuindo para uma convivência harmoniosa entre Portugal e Espanha.

Casou por procuração em Almeirim, a 1 de novembro de 1525, e presencialmente em Sevilha, a 11 de março de 1526. Apesar de se tratar de um casamento arranjado, a união com Carlos V revelou‑se feliz e politicamente sólida. D. Isabel foi Rainha consorte de Espanha e Imperatriz consorte do Sacro Império Romano‑Germânico. Durante as frequentes ausências do marido, exerceu funções de regente da Monarquia Hispânica, nomeadamente entre 1529 e 1533, período em que revelou grande capacidade de governação.

Teve sete filhos, dos quais sobreviveram três: Filipe, futuro Filipe II de Espanha e I de Portugal; Maria de Áustria, imperatriz pelo casamento com Maximiliano II; e Joana de Áustria, mãe do rei D. Sebastião, fruto do seu casamento com D. João de Portugal, filho de D. João III.

A morte da imperatriz, que marcou profundamente Carlos V, ocorreu em Toledo, em 1539, na sequência de um parto mal‑sucedido. O seu corpo foi trasladado num cortejo fúnebre até à Capela Real de Granada, organizado e conduzido por Francisco de Borja y Aragón, IV Duque de Gandia e camareiro‑mor da imperatriz. À chegada, de acordo com o protocolo régio, o caixão foi aberto para reconhecimento do corpo. O estado avançado de decomposição, resultante dos vários dias de viagem, causou um forte impacto em Francisco de Borja, a quem a tradição atribui a frase: «Nunca volveré a servir a señor que se me pueda morir»Este episódio, decisivo na sua vida, levou-o a abandonar a corte e a ingressar, em 1546, após enviuvar, na Companhia de Jesus. Foi beatificado em 1624 por Urbano VIII e canonizado durante o pontificado de Clemente X.

A Biblioteca da Ajuda conserva, entre outros documentos de grande relevância histórica, a coleção Rerum Lusitanicarum, composta por 224 códices copiados em Roma, em 1744, por iniciativa do Comendador Manuel Pereira Sampaio, ministro de D. João V junto da Santa Sé. Esta vasta compilação reúne cópias de documentos relativos à história de Portugal e às suas relações com a Cúria Romana, provenientes da Biblioteca Vaticana e de outros arquivos romanos.

Entre os volumes VIII e LIX encontra‑se a subcoleção Symmicta Lusitanica, dedicada sobretudo à diplomacia portuguesa e à história dos seus monarcas. É neste conjunto que se preserva, no códice 46‑XI‑12 (vol. LVIII, tomo 51.º), a transcrição da bula de dispensa de parentesco, primos, concedida pelo Papa Clemente VII, documento indispensável para a celebração do casamento entre Carlos V e D. Isabel de Portugal. O original da bula encontra‑se registada no Archivio Apostolico Vaticano, no pontificado de Clemente VII (1523‑1534), ano de 1525, sendo o documento acessível no Arquivo Geral de Simancas [ver aqui]

Mais documentos da Biblioteca da Ajuda relativos a D. Isabel de Portugal [aqui]


Manuscritos fora da estante: Encontros com património | 11 de Maio 2026 | 15h00 | Biblioteca da Ajuda |

O ciclo de encontros “Manuscritos fora da estante – Encontros com Património” propõe uma aproximação académica a manuscritos notáveis, convidando o público a observá-los de perto explorando as suas histórias, materialidades e significados num diálogo aberto entre passado e presente.
A sessão inaugural, na Biblioteca da Ajuda, será orientada por especialistas como Elena Lombardo (FLUL/CLUL-Filologia), Joana Gomes (FLUP/IF) e Filipe Alves Moreira (UAb/IELT-UNL Polo UAb), que guiarão o público numa viagem de exploração dos seguintes manuscritos: o Cancioneiro da Ajuda e Livro de Linhagens do Conde D. Pedro; o códice 47-XIII-26 — o único manuscrito conhecido da Vida e Feitos delrey Dom João Segundo, de Garcia de Resende, anterior à edição de 1545; e o códice 51-IX-22 — que contém uma fonte inédita sobre a batalha de Alcácer-Quibir (1578).

Horário: 15h

Inscrições: O acesso é gratuito, limitado a 20 lugares. Para inscrições, preencha este formulário ou escreva um e-mail para manuscritos.fora.da.estante@gmail.com.



Dia Mundial da Poesia: Entre a Poesia e a Filosofia: Alexander Pope, Martha Blount e a Cultura Literária na Inglaterra do Século XVIII

Por ocasião do Dia Mundial da Poesia, celebrado a 21 de março de 2026, relembramos a criação poética enquanto forma de expressão artística cujo impacto transcende a esfera literária, influenciando de modo significativo a cultura e a sociedade. Neste contexto, no âmbito da tradição literária inglesa, evocamos Alexander Pope (1688–1744), cuja obra, marcada pelo rigor formal e pela crítica sagaz, constitui um dos mais notáveis exemplos do neoclassicismo inglês no século XVIII.

Col Icon. BA 827
Nascido em Londres a 21 de maio de 1688, Alexander Pope enfrentou desde a infância problemas de saúde que lhe deixaram sequelas físicas permanentes. Descendente de uma família católica num período de discriminação religiosa, viu-se impedido, devido à legislação anticatólica existente da época, de frequentar universidades como Oxford ou Cambridge, dedicando-se de forma autodidata ao estudo dos clássicos, particularmente de Homero, Virgílio e Horácio. Esta formação refletiu-se nas suas obras, caracterizadas pela mestria na sátira, pela precisão formal e pelo uso do verso heroico.

Autor do poema filosófico An Essay on Man, publicado em quatro epístolas (1733–1734), o poeta reflete sobre a condição humana, o papel do homem no universo e a relação de equilíbrio entre ordem e caos. É nessa mesma obra que surge a sua expressão “Hope springs eternal in the human breast” (An Essay on Man, epístola I, p. 56, linha 95),  que exprime a ideia de que a esperança é eterna no coração humano, numa observação sobre a constância da esperança como traço da natureza humana.

Ensaio sobre o homemepístola I, p. 56, linha 95

Apesar de uma relação tensa com o meio literário da época, Alexander Pope notabilizou-se ainda pela tradução da Ilíada de Homero e pela versão inglesa da Odisseia, realizada sob a sua direção com a colaboração de outros autores. 

Enquanto poeta, algumas das suas mais belas poesias são dedicadas a Martha Blount (1690-1762), figura ativa nos círculos literários da época, sua confidente, por quem desenvolve uma forte ligação.

Col Icon. BA 817
A natureza deste vínculo tem sido objeto de debate na historiografia literária, sendo geralmente caracterizada como uma relação de grande proximidade afetiva, sem consenso quanto à sua eventual dimensão amorosa. Ainda assim, Martha Blount foi uma das presenças mais constantes na vida do poeta. Demonstração do apreço que lhe dedicava foi o facto de lhe ter legado uma parte significativa dos seus bens, incluindo uma quantia monetária substancial e o usufruto de rendimentos provenientes da sua propriedade após a sua morte, em 1744.





A Biblioteca da Ajuda, para além dos retratos de Alexander Pope (registo BA 827) e de Martha Blount (registo BA 817), testemunhos iconográficos destas figuras da literatura e cultura do século XVIII, conserva no seu acervo a tradução para português da obra An Essay on Man, por Francisco Bento Maria Targini (1756-1827), Visconde de São Lourenço, tradutor e literato, que inclui uma dedicatória ao Rei D. João VI: 

Ensaio sobre o homem de Alexandre Pope / traduzido verso por verso por Francisco Bento Maria Targini, Baraõ de Saõ Lourenço... - Londres: na Officina Typographica de C. Whittingham, College House, Chiswick, 1819.

3 vols. - Dedicatória a D. João VI, com as armas reais.  No anterrosto gravura representando Francisco Maria Targini assin. «H.J. da Silva inv. et del.» ; «G. F. Queiroz sculp. em 1815». Gravura entre p. 31 e 32 representando Alexandre Pope assin.: «Jervas pinxit» ; «J. H. Robinson sculp.»

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Gravuras de Francisco Maria Targini e Alexandre Pope

     

Relembrar a vida e obra do poeta Alexander Pope é, simultaneamente, compreender aspetos da cultura literária inglesa desta época, mas também de como as redes de relações humanas se entrelaçam na construção do património cultural.

Desafiamos os leitores a (re)descobrir a sua obra, refletindo sobre a intemporalidade dos seus textos e a sua relevância no contexto contemporâneo

TM&BA

Natal: Uma Alegoria à Maternidade

Oficio de la Virgen Maria                

                              

               

           Oficio de la Virgen Maria.... - Madrid: en la imprenta da Compañia, 1797. BA. 53-VI-1

A Biblioteca da Ajuda, herdeira da Real Biblioteca Particular, possui, no seu muito rico e diversificado acervo, um conjunto de obras com superlibros, marcas relevantes de anteriores proprietários, ou de ligação a encomendadores, ou patrocinadores das edições e que sinalizam as aquisições, doações, ou incorporações que ocorreram ao longo da sua história.

O exemplo que hoje apresentamos - Oficio de la Virgen Maria, livro de Horas, impresso em Madrid, em 1797, concentra toda a riqueza formal na encadernação cuidada, a marroquim vermelho gravado a seco e com ferros a ouro, enquadrando superlibros, com as iniciais "R" e "C" encimadas por coroa fechada, gravadas a ouro, uma na pasta anterior e outra na posterior, simbólica heráldica que nos remete para Carlos IV (1748-1819), rei de Espanha. Nada sabemos quanto à forma como a obra foi incorporada nas colecções da Biblioteca Real. No entanto, dadas as relações familiares próximas entre as duas casas reinantes, a de Espanha e a de Portugal, é provável que se tenha tratado de uma oferta do monarca espanhol a seus parentes da corte régia portuguesa. Quer a D. Maria I (1734-1816), sua prima direita, ou a sua filha D. Carlota Joaquina (1775-1830), à data da impressão do livro, Princesa do Brasil. 

Pastas, anterior e posterior, com as iniciais "R" e "C" encimadas por coroa fechada dentro de molduras com motivos vegetalistas, enquadradas por cercaduras com elementos florais, cantos, contra cantos e cortes dourados, num tipo de estilização  comum nas encadernações espanholas:

No Oficio, a entrada de cada episódio da Vida de Maria e de seu filho Jesus, é ilustrada com gravuras de autoria diversa, entre outros de Mariano Salvador Maella (1739 - Madrid 1819), pintor de Câmara do Rei Carlos IV, gravadas por Manuel Salvador Carmona, e ainda de autores, de menor relevo. De entre as imagens criteriosamente colocadas, introduzindo cada oração, destacamos a alusiva à Natividade que reflete a aprendizagem de Maella no ambiente artístico romano, prévia à sua nomeação como pintor da corte régia de Espanha.

A imagem de Jesus Menino, nas palhinhas, debaixo do olhar enlevado de sua Mãe, e da presença protectora de S. José, rodeado de pastores, e de animais domésticos, encimada por anjos celestiais que iluminam a cena, de invenção de Maella, replica a tradição milenar, de colocar Jesus entre os mais humildes, iconografia que prossegue com várias declinações ao longo dos séculos e que Maella reproduz a partir dos autores do barroco italiano, nas obras dos quais o artista se deixara influenciar. Imagens que são o reflexo do seu périplo de aprendizagem romano e da sua presença activa junto de Anton Raphael Mengs (1728-1779), pintor-académico que Carlos III (1716-1788) chamara para a Corte de Madrid, aí divulgando o gosto pela estética classicista romana.

Este livro do acervo da BA, para além de testemunho dos laços familiares, artísticos e estéticos que uniam as duas monarquias ibéricas e que se reflecte nas obras de arte que possuíam e nas que ofereciam com o objectivo de reforçar alianças políticas e afectivas, algumas das quais enriquecem as colecções patrimoniais nacionais, é ainda a expressão da matriz ideológica e imagética partilhada pelo Sul Católico. 

MMB@BA

AVISO: tolerância de ponto

Informamos os nossos Leitores que na sequência da tolerância de ponto concedida pelo Governo (Despacho n.º 15085-A/2025) e pela decisão do Conselho de Administração da Museus e Monumentos de Portugal (MMP), a Biblioteca da Ajuda estará encerrada nos próximos dias 24, 26 e 31 de dezembro de 2025 e 2 de janeiro de 2026.