Recebemos com muita satisfação um grupo de visitantes especialmente interessado em conhecer os tesouros bibliográficos que pertenciam à Real Biblioteca Particular, hoje Biblioteca da Ajuda. Foi um momento de troca de experiências muito enriquecedor e gratificante.
A Biblioteca da Ajuda é uma das mais antigas Bibliotecas de Portugal caracterizando-se, pela natureza e riqueza dos seus fundos, como uma Biblioteca Patrimonial que tem por objecto a conservação, estudo e divulgação do seu acervo documental
Aviso: Leitura encerrada
Informamos os nosso leitores que, devido à preparação e realização de um evento interno nesta Biblioteca, o serviço de leitura estará encerrado a partir das 13h00, no dia 31 de Março (segunda-feira).
O horário regular será retomado no dia 1 de Abril (terça-feira).
ALEXANDRE HERCULANO: no dia do seu aniversário, 28 de Março
É ainda D. Pedro IV que o retira da frente de batalha no Cerco do Porto e o encarrega de apoiar o bibliotecário do paço episcopal na reorganização dessa biblioteca, convertendo-a na futura Biblioteca Pública do Porto. Para este efeito jura a Carta Constitucional e, em 1836 com o fortalecimento de fações liberais de esquerda que culminam no "Setembrismo", Herculano vem para Lisboa dirigir a revista "O Panorama" (1837-1868), cuja instituição e manutenção são patrocinadas por D. Maria II.
Em 1839, o rei D. Fernando II convida-o para Bibliotecário-Mor das bibliotecas régias (Ajuda e Necessidades) e estreita a sua ligação à Casa Real.
O seu progressivo afastamento da vida política e consequente dedicação aos estudos históricos e literários, mantendo o "desejável" afastamento da vida social, permitem-lhe empreender a tarefa pela qual ainda hoje é destacado: o desenvolvimento de uma história crítica, fundada em documentos os quais são resgatados ao seu sono histórico nos arquivos religiosos do país. Por transcrição ou recolha, são recuperados para o futuro milhares de documentos, muitos deles publicados no Portugal Monumentaa Historiae, bem como na preparação da sua inovadora História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, III vols.. Enquanto Real Bibliotecário, A. Herculano lançou-se na reorganização da Biblioteca Real, dividida entre os Paços da Ajuda e das Necessidades, trocando exemplares duplicados com a Biblioteca de Berlim, estabelecendo a acomodação da mesma na Ajuda em edifício próprio e noticiando os documentos e obras antigas à guarda da Biblioteca Real. Simultaneamente, a sua escrita criativa/literária foi determinada por esta situação e são vários os exemplos que transportam alguns dos seus romances históricos à colecção da Real Biblioteca, como o Monasticon ou A Dama Pé-de-Cabra.
Retirado da cantiga n.º 233 do Cancioneiro da Ajuda
O Monge de Cister, Lisboa: Imp. Nacional 1848
BA 50-VIII-65
Versos retirados das cantiga n.º 283 e cantiga n.º 292 do Cancioneiro da Ajuda
O Monge de Cister, Lisboa: Imp. Nacional 1848
BA 50-VIII-65, p. 155
A sua incansável capacidade de trabalho e aptidões académicas
revelam-se na Biblioteca da Ajuda ainda na identificação e transcrição /
publicação da crónica de D. João III, na integração de 11 fólios da Biblioteca
de Évora pertencentes ao Cancioneiro da
Ajuda, etc. …

Crónica de D. João III [autógrafo] / Fr. Luís de Sousa
Annaes de El-Rei dom João Terceiro / Frei Luís de Sousa; publicado por Alexandre Herculano em 1841
BA. 52-VII-15
O seu afastamento para o campo, com a aquisição da Quinta de Vale de Lobos (1856) e o casamento – em 1867 - com D. Mariana Hermínia Meira vão marcar a última década da sua vida dedicada à agricultura e mantendo a sua função como Bibliotecário-mor. Nesta função, os últimos anos são dominados pela defesa da independência física da Real Biblioteca, em casa própria conseguida pela requalificação da Biblioteca Velha, em sentido inverso ao desejo expresso por D. Luís e D. Carlos de integrar a biblioteca na ala nova do Paço da Ajuda (ordem régia de 1877). Em 1880, 3 anos depois da sua morte, D. Luís ordena a reorganização das primeiras 3 salas da ala norte para acolher a Biblioteca Real.
Sobre as comemorações do centenário do nascimento de Alexandre Herculano:
«Centenário do nascimento de Alexandre Herculano. Comemorações no Porto e em Lisboa, abril de 1910» in Ilustração Portuguesa, 2ª série, nº 220 de 9 maio 1910. Acesso através da Hemeroteca Digital em 19-03-2025 [aqui]
Ilustração Portuguesa, 2ª série, nº 215 de 4 abril 1910, p.
424. Acesso através da Hemeroteca Digital em 19-03-2025 [aqui]
Dia Nacional do Estudante:
A Influência dos Intelectuais Oitocentistas na Educação Portuguesa
Nesta data tão significativa, 24 março 2025, Dia Nacional do Estudante, ocasião em que se reafirma a importância da educação e o papel dos estudantes na construção do presente e futuro, aproveitamos para recordar que a busca pela valorização do ensino e da cultura não é uma questão recente.
De 17 a 19 de maio de 1884, por iniciativa da Rainha Maria Pia, realizou-se a Kermesse da Tapada da Ajuda, festa de caridade a favor da Real Associação das Creches, fundada em 1875 pela monarca. Porém, mais do que apenas um evento de beneficência, que atraiu milhares de pessoas e da qual (…) resultaram (…) grandes proveitos (…), conforme refere Gervasio Lobato na revista Occidente (V. abaixo), serviu também enquanto veículo para que um conjunto de intelectuais e pedagogos portugueses prestassem uma significativa homenagem à educação através da escrita de vários textos em verso e em prosa que formam um precioso álbum comemorativo (BA 52-XIV-8), recebido pela a Rainha Maria Pia nesta ocasião, e que atualmente integra o acervo da Biblioteca da Ajuda.
A referida obra, inclui textos autógrafos de figuras de destaque no pensamento e na pedagogia do século XIX, que contribuíram de forma relevante para o desenvolvimento da educação e do conhecimento em Portugal como Pedro Venceslau de Brito Aranha (1833-1914), António Maria Afonso Vargas entre outros dos quais destacamos os mais relevantes:
João de Deus de Nogueira Ramos (1830-1896)
Joaquim Pinheiro Chagas (1842-1895)
Escritor, professor, jornalista e político, dedicou-se ao ensino da literatura e da história, deixando um legado importante na educação humanística.
António Feliciano de Castilho (1800-1875)
Escritor e pedagogo, desempenhou um papel significativo na reforma do ensino no século XIX em Portugal. Foi inventor de um método de ensino infantil da leitura, baseado na utilização de uma cartilha, que ficou conhecido como Método Castilho de leitura [aqui].
Em suma, o Álbum de Autographos dedicado à Rainha Maria Pia, mais do que apenas um testemunho de um evento de beneficência, representa também um compromisso coletivo com a educação e com o progresso intelectual da sociedade portuguesa.
No Dia Nacional do Estudante, relembramos a importância da construção do conhecimento, enquanto legado partilhado entre gerações e essencial pilar para a evolução social e cultural.
Que o espírito destes intelectuais continue a inspirar a valorização da educação e do pensamento crítico!
Para saber mais:
No dia da Mulher evocamos uma figura feminina que se destacou no meio cultural português do seu tempo:
D. Leonor de Almeida (1750-1839), Condessa de Oyenhausen, 4ª Marquesa de Alorna
D. Leonor de Almeida, futura 4ª Marquesa de Alorna, dama detentora de vasta cultura, que apurara nos tempos de cativeiro, por 14 anos, no Convento de Chelas[1], viveu todos os paradoxos e contradições de um tempo no qual era enaltecida a instrução feminina, pelos filósofos da Ilustração, mas que, em simultâneo, a sociedade condicionava a intervenção das mulheres no espaço público.
J.J. Rousseau (1712-1778) filósofo da
ilustração que imprimira a sua visão progressista para um modelo de sociedade, igualitária,
n´O Contrato Social, ou no Discours sur l´Origine, et les fondements
de l´Inegalité des Hommes, entre outras obras, deixara, porém, na sua novela
pedagógica, Emile ou de l´Education, um papel secundário para a personagem
feminina, e não o da mulher na plenitude da sua afirmação individual. No
obstante ser de leitura “suprimida”, pela Real Mesa Censória, as damas liam as
obras do filósofo, como demonstra a correspondência de D. Teresa de Mello Breyner (1739-179?), (Tirse) outra mulher ilustrada da corte mariana, com D.
Leonor, que, na resposta às cartas da amiga, apelida o genebrino de “Heroe
desprezador de mulheres”, pela “pouca onra que elle faz ao nosso sexo”[2].
Este fora um
período durante o qual a instrução feminina se difundira, essencialmente entre
as elites, persistindo, no entanto, um grande desconhecimento sobre a criação
literária de mulheres escritoras, pois o recurso à publicação anónima,
ou debaixo de siglas, num compromisso entre o anonimato e a afirmação da
identidade, foi um subterfúgio utilizado, já que, “ser autora de trabalho
remunerado pareceria imodesto”[3],
falta que nenhuma dama de sociedade quereria cometer.
Era nesse contexto complexo de fim do Antigo
Regime que D. Leonor viveu. Sabemos que algumas mulheres liam, tinham as suas
bibliotecas ou livrarias, e escreviam, porém, as suas obras, não eram editadas
em nome próprio.
No que respeita a obra de D. Leonor diversas
foram as fórmulas utilizadas para “esconder” a sua autora, apenas reconhecível
entre o grupo restrito em que se movia. A própria comenta em carta, que dirige
de Londres a sua sobrinha, em 1806, que a filha “Juliana também escreve duas
regras para me pedir licença para imprimir as minhas obras!!! Como se isto me
bastasse e que essa espécie de vaidade coubesse ainda no meu coração. Nunca
escrevi com intenção d´imprimir (…)”[4].
A modéstia e o recato eram convenientes a uma
dama se não quisesse ser acusada de pedantaria ou presunção, pecado maior para
uma mulher. Escrever e publicar em nome próprio era, sobretudo, apanágio
masculino, D. Leonor não escapou ao ar do tempo.
Só após a morte da já então Marquesa de Alorna as suas filhas publicariam, em 1844, a produção literária de sua mãe, quer a poesia e a prosa, quer as traduções, às quais a escritora se dedicara em diversas épocas (BA. 122-III-41 a 46).
As primeiras obras, impressas, de D. Leonor
foram dedicadas à tradução, então considerada uma actividade “legítima”, para
as damas, pois era uma tarefa que não significava a exposição pública de criatividade,
ou individualidade, já que se apresentavam, quase sempre, por autora anónima ou,
por vezes, debaixo das iniciais do seu pseudónimo artístico. Não deixavam,
porém, de indiciar a presença de alguém que dominava diversos idiomas, desde
logo o latim, bem como o inglês, o francês, e conhecimentos da língua alemã.
De Buonaparte e dos Bourbons, de 1814 (BA. 154-II-10, nº 17), da Paráfrase dos Salmos, em duas partes, em 1817 e em 1833, ou o Ensaio sobre a indiferença em matéria de religião, de Lamennais, em 1820, e ainda as obras de caracter didático-científico como As Recreações Botânicas, ou a Arte Poética de Horácio e do Essay on Criticism de Pope[5].

Alorna, Marquesa de, 1750-1839A tradução da obra de J.J. Rousseau Cartas sobre os elementos de Botânica, que localizamos na BA, “traduzidas da língua inglesa por huma senhora desta corte”, conforme surge na folha de rosto, faz-nos suspeitar da presença de D. Leonor, sem que o possamos afirmar com plenitude de segurança. Não deixamos, no entanto, de a apresentar, pois trata-se da tradução de obra interdita, de um autor que D. Leonor lera, dedicada a uma matéria que tanto prezava, como comprovam as suas Recreações Botânicas e quem senão Alcipe estaria em condição de o fazer na corte portuguesa?
Cartas sobre os elementos de Botanica, por J. J. Rousseau de Thomaz Martyn (quarta edição) traduzidas da língua inglesa por huma Senhora desta corte, Lisboa, na Typographia Chalcografica, Typoplastica, e Litteraria do Arco do Cego, 1801. BA 33-IV-45.
A obra completa de D. Leonor de Almeida seria editada postumamente por suas filhas, cuja recompilação nos ajuda agora a conhecer um conjunto significativo de obra de sua autoria bem como as traduções a que se dedicou, sendo, no entanto, provável que nem tudo quanto Alcipe escreveu esteja contemplado naqueles volumes, pois muita da produção poética passava manuscrita nos salões literários que frequentava.
O Marquês de Bombelles, Embaixador de França, entre 1786-1788, deixa-lhe os maiores elogios no Diário[6] que redige da sua passagem por Portugal, levantando um pouco o véu sobre o grau de desembaraço e cultura das damas que frequentavam os salões aristocráticos tardo-setecentistas. Sobre “Mme d´Oyenhausen” deixa escrito que durante o jantar em sua casa “elle s´est montée au ton de la poésie et nous a fait grand plaisir en improvisant dans une langue qui n´est la sienne. Elle nous a aussi récité des vers d´une grande beauté (…)”.
Sabendo quanto eram parcos em elogios os
visitantes estrangeiros sobre o grau de cultura das elites em Portugal, este
testemunho não deixa de ser eloquente sobre os méritos que recaiam sobre a
escritora que agora quisemos evocar.
[1]
MARQUEZ de ÁVILA E BOLAMA, A Marqueza d´Alorna, Lisboa, 1916, p.
21.
[2] BELLO VÁSQUEZ, Raquel, Uma certa ambiçaõ de gloria. Trajectória, redes e estratégias de Teresa de Mello Breyner nos campos intelectual e do poder em Portugal (1770-1798), tese de Doutoramento, Universidade de Santiago de Compostela, Janeiro, 2005. Disponível aqui
[3]
LEHNER, Ulrich, Women, Enlightenment and Catholicism, Routledge, 2018,
p. 2.
[4] ANASTÁCIO, Vanda, “Cherchez la femme (À propôs d´une forme de sociabilité litteraire à Lisbonne à la fin du XVIIIème siècle)”. Arquivos do Centro Cultural Português, vol. XLIX, Centre Culturel C. Gulbenkian, 2005, pp. 93-101.
[5] Ver ANASTÁCIO, VANDA, “Mulheres varonis e interesses domésticos” (Reflexões acerca do discurso produzido pela História Literária acerca das mulheres escritoras da viragem do século XVIII para o século XIX), Cartographies, Lisboa, 2005, pp. 537-556.
[6] BOMBELLES, Marquis de, Journal d´un Ambassadeur de France au
Portugal 1786-1788, Fondation Calouste Gulbenkian, Paris, 1979.
Abolição do estado de escravidão em Portugal
A 25 de Fevereiro de 1869, D. Luís I decreta que " Fica abolido o estado de escravidão em todos os territorios da monarchia Portugueza desde o dia da publicação do presente decreto...." (legislação régia [aqui]).
Esta importante medida foi antecedida de muitas outras tomadas ao longo dos tempos, por diferentes monarcas, cuja mais antiga remonta a D. Sebastião através do diploma de 20 de março de 1570 - Lei sobre a liberdade dos gentios [no Brasil]- , transcrito por Francisco Adolfo de Varnhagen, na sua obra História Geral do Brasil, Secção XX, p. 322 [aqui].JOSÉ I, 1714-1777, Rei de Portugal
Portugal. Leis, decretos, etc. (1761, Setembro, 19) ;
Chancelaria-mor do Reino - [Alvará com força de ley, porque Vossa Magestade he servido prohibir, que se possam carregar, nem transportar escravos pretos de hum, e outro sexo dos pórtos da America, Africa, e Asia, para os destes reinos de Portugal, e dos Algarves...]. [Lisboa] : impresso na Chancellaria mór da Corte, e Reino, [1761]. 4 p.
BA 96-VIII-40, p. 42-43
Vide versão manuscrita: Torre do Tombo, Leis e ordenações, Leis, mç. 6, n.º 4
Em 1773, é publicado Alvará que pretende obviar, "... ao impio e desumano abuso, com que no Reino do Algarve, e em algumas provincias de Portugal se procuráram perpetuar os captiveiros..." e terminar, de forma gradual, a escravidão em Portugal
JOSÉ I, 1714-1777, Rei de Portugal
Portugal. Leis, decretos, etc. (1773, Janeiro 16)
Portugal. Leis, decretos, etc. ; Biblioteca das Necessidades (Lisboa) - Collecçaõ das leys, decretos, e alvarás, que comprehende o feliz reinado Del Rey Fidelissimo D. Jozé o I nosso Senhor, desde o anno de 1761 até o de 1769 [1770] : tomo II-[III]. Lisboa : na officina de Miguel Rodrigues, impressor do Eminentissimo Cardial Patriarca , 1770-[1773]. 1 v.
BA 96-VIII-37, p. 263-265





























