1883: Registo de acreditação do novo Embaixador Japonês

Aos 15 dias do 3º mês do 16º ano da era Meiji (1883), o Imperador do Japão, Mutsuhito, assina na sua residência imperial de Tóquio a carta de acreditação de um novo representante diplomático junto de D. Luís I de Portugal. E assim se renovou a aproximação entre duas nações que dificilmente estariam mais afastadas geograficamente.

                                                            
D. Luís I /Augusto Bobone /PNA [aqui]                            Imperador Mutshuhito / BNP [aqui
                                                                                           

Hachisuka Mochiaki , (Marquês Hachisuka Mochiaki (蜂須賀 茂韶, 28 Set. 1846 – 10 Fev. 1918) o novo Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário do Japão, é recomendado pela sua "lealdade e os seus talentos" para este cargo junto do soberano português, em que deveria estender a longa e pacífica amizade entre o Japão e Portugal. Homem educado durante a mudança reformista e modernizadora Meiji, assistiu ao fim do sistema feudal dos shogunatos e ao desenvolvimento de uma nova potência industrial que se abriu ao mundo ocidental e ao seu progresso. Educado em Inglaterra, em Oxford, seguiu uma carreira político-administrativa após regressar ao Japão que incluiu, em 1882, um lugar diplomático em França, seguido do governo de Tóquio e várias posições políticas de relevo que lhe granjearam o título nobiliárquico de marquês em 1884.


  54-XI-13, n.º 18





  54-XI-13, n.º 18

A carta de acreditação, verdadeira credencial no sentido que certifica as qualidades e títulos do novo representante do Imperador do Japão, é também curiosa aos nossos olhos ocidentais e contemporâneos:

1. A garantia da legitimidade da pessoa imperial é dada pela recondução ao início da dinastia imperial japonesa, "depuis le temps plus reculées", isto é, ao 1º Imperador Jimmu (660 a.C.) personagem cuja vida histórica é quase desconhecida e, por isso, pertencente ao grupo de "imperadores mitológicos".

2. O original japonês, no seu conteúdo, é atestado pela aposição do selo imperial, um crisântemo, que timbra também o papel, sobre fita púrpura. O selo de papel que colava o envelope é também imperial.

3. O grande selo vermelho, carimbo, é o Selo do Estado do Japão ou Selo Real do Japão que é um dos selos nacionais do Japão, usado como selo oficial do Estado e atualmente usado apenas nos certificados das Ordens concedidas pelo Estado, estando o seu uso ilegítimo sujeito a penalizações civis.

MFG (BA)

Nos 480 anos da chegada dos portugueses ao Japão: a embaixada Tensho e o seu relato na obra da Biblioteca da Ajuda, "De missione legatorum... "

O desembarque, na ilha de Tanegashima, dos navegadores portugueses António Mota, António Peixoto e Francisco Zeimoto, em 1543, marca o primeiro encontro entre Portugal e o Japão. Até essa data, este país do Extremo Oriente só era conhecido na Europa pelos escritos de Marco Polo (1298-1299), o qual, apesar de não ter ido além da China, refere diversas vezes a ilha de Cipango. Mas os seus relatos, contudo, não foram considerados totalmente credíveis, sendo mesmo, por vezes, considerados como invenções.
A missionação católica, iniciada com S. Francisco Xavier a partir de 1549, permitiu um melhor conhecimento destas paragens pelos europeus, através da epistolografia jesuíta. A carta com as primeiras impressões deste missionário sobre o arquipélago e os seus habitantes, escrita em Kagoshima, em novembro de 1549, conheceu uma enorme difusão na Europa, sendo editada em Coimbra, logo em 1551, e em Roma e Veneza, no ano seguinte. Esta relata que: "este povo é a delícia do meu coração [e é] gente de mui boa conversação, geralmente boa, e não maliciosa [...], de muitas cortesias uns com outros. É gente que não sofre injúrias nenhumas, nem palavras ditas com desprezo […] de muito juízo e curiosa de saber, asi nas cousas de Deus, como nas outras cousas da ciência"[1].
Era através dos jesuítas que a Europa do Renascimento e da Reforma descobria um Japão longínquo e exótico e, simultaneamente os japoneses contactavam com um mundo para além do arquipélago.
O projecto de inculturação do Cristianismo no Japão, levado a cabo pelos jesuítas, foi sustentado na estratégia de evangelização focada na aristocracia militar, aproveitando a capacidade de persuasão dos guerreiros junto dos respetivos vassalos, mas também na abertura do sacerdócio aos novos cristãos nativos, introduzida pelo P. Alessandro Valignano. A marca distintiva deste projecto foi a aproximação dos missionários ao mundo japonês, como estratégia de conversão.
Esta vontade de dar a conhecer aos europeus a missão japonesa e, simultaneamente, permitir aos japoneses o conhecimento da Europa esteve na génese da embaixada Tensho, organizada por Valignano, já nos finais do século XVI, altura em que Portugal perdera a independência após uma crise dinástica.
A referida comitiva era composta por quatro dáimios, dois deles alunos do seminário jesuíta de Arima, que pertenciam à alta nobreza japonesa. Foram acompanhados pelo P. Diogo de Mesquita que serviu de guia e de intérprete ao longo da viagem pela Europa.


Retrato da Missão Tensho na Europa, In: "Newe Zeyttung auss der Insel ]aponien" [Notícias da Ilha do Japão] Kyoto UniversityRare Materials Digital Archive

Gravura feita em Augsburg em 1586 retratando os dois jovens "embaixadores" japoneses (em cima) com seus dois assistentes (em baixo) e o jesuíta que os acompanhava (em cima no centro)



A viagem, cujo destino final era Roma a fim de serem recebidos pelo Papa Gregório XIII, demorou cerca de oito anos: o navio zarpou do Japão em 1582 e só regressou em 1590, passando por Portugal, Espanha e o norte de Itália. Dessa forma, Valignano mostrava à Santa Sé um cristianismo japonês, enquadrado perfeitamente na evangelização jesuíta.
Desta viagem resultou um relato escrito em forma de diálogo entre os jovens embaixadores recém-regressados da Curia Romana e os seus familiares e amigos que haviam ficado no Japão, através do qual os primeiros vão contando todas as novidades que haviam assistido na Europa. Escrita em latim, esta obra, da qual a Biblioteca da Ajuda possui um exemplar (B.A. 50-X-20), foi a primeira grande obra impressa em Macau, em 1590, na prensa trazida por Valignano, sob o título «De missione legatorum Iaponensium ad Romanam curiam, rebusq; in Europa, ac toto itinere animaduersis dialogus […]»[2].
 

SANDE, Duarte de                                        
De missione legatorum Japonensium ad Romanam curiam rebusque in Europa ac toto itinere animadversas dialogus / ab Eduardo de SandeIn Macaensi portu sinici regni in domo Societatis Jesu (...), anno 1590. - 4.°.  — Pert.: Col. Nobres. — A.711

50-x-20 e 50-x-20A (fac simile)



Relativamente à sua autoria, as opiniões dividem-se, pois se para alguns, como Moran (2001)[3], Valignano teria escrito a obra em castelhano, sendo posteriormente traduzida para latim por Duarte de Sande, outros autores, nomeadamente Costa Ramalho[4], atribuem ao próprio Duarte de Sande a autoria da obra, que teria vertido para latim os relatos em japonês dos jovens dáimios.
Independentemente da sua autoria, esta obra reveste-se de especial importância por atestar a forma como os japoneses se interessaram e assimilaram a cultura europeia, designadamente a música.
Quando perguntam a um dos jovens dáimios como tinham passado a longa viagem por mar este responde que “muitas coisas há com que os navegantes podem entreter-se, para sofrerem com menor má disposição a longa passagem do tempo. Foi o que principalmente nos aconteceu: ora estudávamos a língua latina, ora tocávamos instrumentos musicais […] sem nos esquecermos das costumadas orações a Deus e aos santos. (De Missione…T.1, p. 128)
E sobre os instrumentos musicais dos europeus, revela que existem “Muitos e extremamente agradáveis, como por exemplo saltérios, harpas, liras, cítaras, para não falar de outros que pertencem à plebe e se tocam soprando, como flautas, sambucas, gaitas-de-beiços, trombetas e outros do mesmo género que fazem parte da orquestra e que todos eles tocados ou soprados com arte produzem uma suavíssima harmonia.” E ainda que o “canto europeu é composto de uma arte requintada. Nele, com efeito, ao contrário do que acontece com o nosso, não se conserva perpetuamente o mesmo tom de todas as vozes, mas uns tons são agudos, outros graves, outros intermédios, os quais, emitidos ao mesmo tempo artisticamente, produzem uma admirável harmonia. […] Entre nós, porém, porque no canto não há nenhuma diversidade de tons, mas um só e mesmo modo de emitir a voz, não existe até agora nenhuma arte e nenhum método em que estejam contidos os preceitos da sinfonia, ao passo que os europeus, graças à múltipla variedade dos sons, ao hábil fabrico de instrumentos e à multidão admirável de livros musicais e de figuras, ilustraram com grande relevo esta arte. (De Missione…T. 1, p. 230-231).






De Missione…, p. 230-231





Este fascínio pela polifonia por parte dos japoneses, que contrastava com o canto monódico comum no Japão da época, verificou-se quando, em Setembro de 1584, o arcebispo D. Teotónio de Bragança mostrou aos embaixadores o órgão do coro da Sé de Évora, que terá os maravilhado não só pelo seu enorme tamanho, mas também porque “tocando em hũa tecla moviãose tres ordens de teclas, que são três maneiras de órgãos, e fazem hũa sonora armonia”[5].

Construído pelo famoso organeiro Heitor Lobo, que esteve ao serviço da Sé de Évora entre 1544 e 1553, o órgão da Sé de Évora encontra-se instalado na sua tribuna, junto ao coro alto. É considerado o único instrumento deste período que chegou aos nossos dias, embora com extensas modificações que alteraram a sua configuração original[6]. Apesar das alterações que foi sofrendo ao longo dos tempos, parte dos tubos originais foi conservada, mantendo, assim, a sua sonoridade original, sem alterações significativas.



Órgão quinhentista da Sé de Évora

Fotografia de Francisco Bilou





Évora e os seus órgão de tubos [aqui]




Pode ouvir a sonoridade do órgão, que os embaixadores japoneses terão ouvido há 440 anos e que tanto os maravilhou, neste link: https://www.youtube.com/­watch?v=ZFVs6ZU0vtw.
Após o seu regresso ao Japão, a embaixada foi recebida, em 1591, em Quioto, juntamente com Valignano, por Hideyoshi, que sucedera a Nobunaga na política de unificação do Japão e que havia publicado em Julho de 1587 um édito anti-cristão, no qual se ordenava a expulsão dos padres e a proibição do culto.
Na ocasião os jovens cantaram e tocaram instrumentos musicais aprendidos na Europa, e explicaram ao senhor do recém-unificado Japão tudo o que tinham visto na sua viagem. Hideyoshi mostrou-se muito interessado nos relatos e, de acordo com Luís Fróis[7], pediu por várias vezes que continuassem a tocar. Depois, pegando nos instrumentos sobre os quais fez diversas perguntas, pediu que tocassem novamente.
O sucesso da embaixada Tensho não impediu, no entanto, todos os acontecimentos que se seguiram, que culminaram com a expulsão dos portugueses do Japão, apesar da cultura e da música europeias continuarem a fascinar os japoneses.

MJA (BA)

[1]Cartas que os padres e irmãos da companhia de Iesus escreverão dos Reynos de Iapão & China aos da mesma Companhia da India, & Europa desdo anno de 1549. Até o de 1580 / impressas por mandado do Reverendissimo em Christo Padre Dom Theotonio de Bragança, Arcebispo d' Evora [...]. Em Evora : por Manoel de Lyra, 1598. Tomo 1. BA. 50-XIII-20, [exemplar da BNP aqui]
[2] De Missione Legatorum Iaponensium Ad Romanam Curiam Rebusq In Europa Ac Toto Itinere Animaduersis Dialogus [...] / Ab Eduardo De Sande [...].In Macaensi portu : in domo Societatis Iesu, 1590. [exemplar da BNP aqui]
[3] Moran, J.F. - The real author of de missione legatorum Iaponensium ad Romanam curiam..dialogus. Bulletin of Portuguese - Japanese Studies. N. 2 (june, 2001), pp. 7 – 21.
[4] Ramalho, A.C. - O Padre Duarte de Sande, S. I., verdadeiro autor do De Missione Legatorum Iaponensium ad Romanam Curiam … Dialogus. Revista de Cultura. 2ª série (1997), pp. 43-51.
[5] Fróis, Luís - Tratado dos embaixadores japões que forão de Japão a Roma no ano de 1582, [17--], p. 43
[6] João, PAIVA, Rui, d´ALMEIDA, Emanuel Santos - Portugaliae Monumenta Organica : Órgãos de Portugal. Lisboa: PolyGram/Selecções do Reader´s Digest, 1992.
[7] Fróis, Luís - História do Japam, anot. José Wicki. Lisboa : Biblioteca Nacional, 1984. Vol. 5

Dia Internacional do livro infantil: 2 de Abril

Na qualidade de “casa de livros” a Biblioteca da Ajuda (BA) assinala este dia atestando a importância e a intemporalidade dos livros, neste caso, para a infância.

No acervo da BA, ao contrário do que seria de supor,  pelas características patrimoniais do mesmo, não existiriam livros “ditos” infantis ou juvenis,  mas existem, efetivamente, dois exemplares diferentes, em séculos, colecções e raridade.

Uma dessas obras, classificada por Brunet[1] como Belle et très-rare edition..., da colecção de incunábulos[2]é a vida e fábulas de Esopo, numa versão Italiana e latina, ilustrada com belíssimas gravuras (xilogravuras), alusivas ao tema das fábulas e vida do seu autor, e com marcas da “proprietária” que assinalou, por toda a obra, evidências da sua posse, através do que consideramos ser um treino de grafia do seu nome, “Lucrezia Bolognese”, "Lucrezia bolocineze" "Lucezia belle", "A Lucrezia bolognese Ant".., e não só. Obra curiosa alia as fábulas e os seus exemplos morais, com ilustrações que serviriam para aguarelar, e algumas foram, à semelhança dos livros para colorir, atuais.

[Aesopi Vita et fabulae..] / [trad. lat.] Francisco Tuppo. - Napoli : [Francisco Tuppo e Germani Fidelissimi], 1485 Fevereiro 13. - [158] f. il. ; 2°. — Assin.: a6 b10 c8 e6 f6. — Pert.: Lucrezia Bolognese.. [ms.]

Colofão: ‘‘Impresse Neapoli ...sub anno domini M. CCCC. LXXXV. die XIII mensis Februarii’’.

BA 48-X-12

xilogravura não colorida

A outra obra, já em pleno século 19, Les contes de Perrault , com ilustrações de Gustave Doré[3], pertence à colecção de álbuns e tem aposto o selo do Arrolamento Judicial dos bens existentes no Paço da Ajuda “U’’’3129”[4], que certifica a sua pertença, à Casa Real.

Les contes de Perrault: desenhos de Gustave Doré. Preface par P.-J. Stahl
Paris: Hezel, 1862, 1862
BA 125-II-14

                           


Com características diferentes da obra de Esopo, apesar de tanto as fábulas como os contos de fadas remeterem para finais morais, esta é uma obra que, pelas suas dimensões generosas, qualidade das ilustrações e luxo da encadernação, poderemos classificar de aparato. Contos como Cinderela, o Gato das botas, Bela adormecida e tantos outros permanecerão no imaginário infantil, e não só, quer comecem pela frase, Era uma vez... ou Il était une fois...


Le maitre chat ou le chat botte [Gato das botas]




La belle au bois dormant [Bela adormecida]
Como o dia em questão também homenageia Hans Christian Andersen, cujos contos infantis se encontram entre os mais lidos de sempre, a BA recomenda a obra abaixo, referente à vinda a Portugal do príncipe dos contistas modernos.., como lhe chamou o escritor Júlio César Machadono artigo publicado, em 1885, na revista Ilustração Portuguesa e o portal da BNP, dedicado ao mesmo contista, por ocasião da exposição que, em 2005, assinalou os 220 anos do seu nascimento: 


A Ilustração Portuguesa : semanário : revista literária e artística, 2º Ano

N.º 17, 9 de Novembro de 1885 [aqui]




Uma visita em Portugal em 1886 /  Hans Christian Andersen;  tradução direta e notas de Dr. Silva Duarte. - Lisboa: Nova Lisboa Gráfica, Lda.; In-8º de 177, [3]p. páginas; ilustrado

BA 111-IX-50




Hans Christian Andersen: 1805-1875 (portal BNP) [aqui]


[1] Brunet, Jacques-Charles, Manuel du libraire et de l'amateur de livres. Tome I, Aa-Chytraeus / col. 98

[2] Designação do livro impresso com caracteres móveis, entre a invenção da prensa e o fim do séc. XV

[3] Gustave Doré (1832—1883), pintor, desenhador e ilustrador francês de livros de meados do século XIX

[4] Auto de Arrolamento 426: https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4683796


Dia Nacional do Estudante: 24 de Março

D. Augusto PNA Reg. 42084
Hoje, em que se celebra o dia Nacional do Estudante, publicamos o horário e as matérias de estudo destinados, assumimos pela data, ao Infante D. Augusto. Sendo datado de 1863, o horário em causa, terá sido elaborado para o Infante D. Augusto, Duque de Coimbra, pois os seus irmãos os Infantes D. João e D. Fernando morreram, tal como o Rei, D. Pedro V, também seu irmão, em 1861. A educação das Infantas, D. Maria Ana e D. Antónia, estava a cargo de D. Maria de Vasconcelos e Sousa (Castelo Melhor). 

Os estudos iniciavam-se às 7h00 e, para além das quatro línguas (Alemão, Francês, Inglês e Latim), era lecionada matemática, geografia, história, e ainda lições de piano, desenho, caligrafia,  equitação e esgrima. O domingo era mais leve na matéria, estudo e catecismo, sendo as restantes horas, depois da missa, dedicadas à brincadeira ou, à época, "recreação". 
Como Maria Antónia Lopes [1], refere Os príncipes das três últimas gerações da família real portuguesa, nascidos entre 1837 e 1889, foram todos poliglotas e bons conhecedores de uma vasta gama de saberes que ia das Humanidades às Ciências Naturais e às Artes, dominando em cada uma dessas áreas um amplo leque de disciplinas, a que aliavam as práticas desportivas e os tradicionais talentos das elites. (…). A aquisição de uma tal erudição e aptidões só foi possível porque seguiram todos um programa educativo muito exigente, com anos de trabalho árduo....


BA. 54-X-31, n.º 141

  1863, Nov. 3, Paço das Necessidades

  Horas de estudo e das lições de S. A.  

 Assina Manuel Moreira Coelho: Vice cônsul em Paris e que, a partir de 1847, passou a supervisionar a educação dos Infantes, filhos  da Rainha D. Maria II.






Família Real, PNA Reg. 60074


 1863

 D. Maria Pia, D. Luis, D. Fernando e D. Augusto

                                             
D. Augusto, PNA Reg. 49180

A educação dos príncipes, nas colecções do Museu-Biblioteca da Casa de Bragança [aqui]


[1]  Lopes, Maria Antónia, A educação dos príncipes nas últimas três gerações da família real portuguesa in: A educação dos príncipes, nas colecções do Museu-Biblioteca da Casa de Bragança / Textos David Felismino… [Et Al.]; coord. Maria de Jesus Monge… - [S.l.] : Fundação da Casa de Bragança Museu-Biblioteca, D.l. 2017

 

Dia da Mulher, 8 de março de 2023

A Biblioteca da Ajuda (BA), repositório de um acervo patrimonial muito rico e diverso, possui um número significativo de obras que permite evocar mulheres/damas que se destacaram no seu tempo, apesar de menos reconhecidas na actualidade.

Os estudos de género têm vindo a despertar a atenção do meio académico já que o quase apagamento da acção das mulheres nas narrativas históricas, não é consentâneo com o papel que algumas desempenharam nos contextos sociais, políticos e culturais em que viveram, nos finais do Antigo Regime e mesmo ao longo de todo o século XIX.

Nesta ocasião, escolhemos evocar três figuras distintas, activas nos finais de setecentos, no momento de ruptura histórica marcado pela Revolução Francesa de 1789 e pela queda da monarquia francesa, pelas invasões napoleónicas e pela difusão dos ideais republicanos, sendo que neste primeiro texto apenas falaremos de duas delas e da sua presença na BA. Contemporâneas, e com destinos igualmente atribulados, uma, Leonor da Fonseca Pimentel (1752-1799) e outra, Mary Wollstonecraft (1759-1797), foram pioneiras na afirmação da independência feminina, tendo-se salientado, enquanto intelectuais, por abrirem vias até aí vedadas ao seu género, quer por pugnarem pela defesa de um acesso mais amplo das mulheres a algum tipo de educação formal[1], quer pelos seus modos de vida, marcados pela participação cívica, e pelos ideais de liberdade e de autonomia face à tutela masculina.

E por fim, nesta invocação não poderíamos deixar de mencionar D. Leonor de Almeida (1750-1839), Condessa de Oyenhausen, futura Marquesa de Alorna, aristocrata que ao longo de uma existência plena de incidentes revelou determinação, capacidade de reagir positivamente às adversidades, espírito culto e independente, cuja curiosidade intelectual, criatividade literária e “protecção litteraria[2]” com que favoreceu autores como Alexandre Herculano, marcaria a sociedade portuguesa, e a história da cultura do seu tempo. A ela dedicaremos o próximo texto.

   Leonor da Fonseca Pimentel Chaves[3]

Leonor da Fonseca Pimentel. De Leonor da Fonseca Pimentel possui a Biblioteca da Ajuda um interessante manuscrito “La Fuga in Egitto Oratório Sagro dedicato a S.A.R. D. Carlotta Borbone, Principessa del Brasile[4], datado de 1792. Apesar de dedicada a D. Carlota Joaquina (1775-1830), esta peça, a ser musicada, não consta do Catálogo da Livraria[5] da soberana, elaborado no ano seguinte ao da sua morte, em 1831.

Portuguesa, nascida em Roma, escritora, jornalista, erudita, Leonor da Fonseca Pimentel foi bibliotecária de Maria Carolina de Habsburgo (1752-1814), Rainha das Duas Sicílias, sendo “uma das mulheres mais celebradas do seu tempo”. O seu destino, porém, revelar-se-ia trágico.

Aderindo ao partido republicano, após a chegada das tropas francesas a Nápoles, dirige, naquela cidade, o jornal O Monitor. Alcançando cargos de prestígio e ofícios raros para uma mulher, Leonor, contudo, não escapa ilesa à queda da efémera República napolitana, à qual aderira com entusiasmo. Caindo em desgraça, foi presa, condenada e executada, naquele mesmo ano de 1799.

No campo da escrita, “depois do soneto, o género literário a que a jovem Leonor da Fonseca Pimentel mais recorre[ra]”, fora a “poesia para música”[6], redigindo “quatro cantatas e uma oratória”, sendo esta última, a que dedica a D. Carlota Joaquina, no ano de 1792. Talvez não tivesse sido irrelevante, por aqueles anos, o facto de a então Princesa do Brasil ser sobrinha da rainha Carolina, na ocasião, sua protectora, já que, às autoras, face à dificuldade de acesso ao mercado editorial, era vantajosa a tutela mecenática, para a participação num campo, essencialmente, masculino.

 













La Fuga in Egitto Oratório Sagro dedicato a S.A.R. D. Carlotta Borbone, Principessa del Brasile, assinado “Da D. Eleonora de Fonseca Pimentel Chaves, Napoli 1792”[7].


Não deixa de ser interessante este tributo de uma autora caraterizada como uma “Alma irrequieta, 
combativa, dominada pela filosofia e pela utopia”[8], a uma princesa reconhecidamente implicada nos processos de criação artística na corte portuguesa, mas que se colocaria, após os anos da Revolução Francesa, nos antípodas das escolhas políticas dos anos finais de Leonor. Duas personalidades ilustradas, e que apesar de comungarem crenças religiosas profundas[9], seguiriam trajectórias políticas opostas.


   Mary Wollstonecraft por John Opie (1797)[10]

Mary Wollstonecraft. Escritora, pioneira de uma escrita no feminino, tal como Leonor, teria uma vida recheada de incidentes e de infortúnios. A estes, responderia com a criatividade literária que a levou a redigir inúmeros textos na defesa dos direitos das mulheres, ora em ensaios, ora na forma de novelas de tom moral, ora em forma de cartas de pendor sentimental. A sua primeira publicação Thoughts on the education of Daughters: With Reflections on Female Conduct, in the more Important duties of life (1787) é, no título, eloquente quanto ao objectivo da defesa da causa da educação formal das raparigas; seguindo-se, entre outras edições, A Vindication of the Rights of Men, em 1790; A Vindication of the Rights of Woman, no ano de 1792; An Historical and Moral View of the Origin and Progress of the French Revolution, em 1794; e, Letters Written During a Short Residence in Sweden, Norway, and Denmark, em 1796[11]. Este último livro, em forma epistolar, parecia ir ao encontro dos interesses dos “leitores setecentistas pelas narrativas de viagem – imaginárias ou reais, escritas por personagens inventadas ou por figuras notórias, instaladas entre a ficção e a reportagem, a crítica social e o aprendizado do mundo”[12],  alcançando a autora, com este tipo de escrita, um enorme sucesso editorial.

Se nas obras iniciais, em forma de ensaios, o lado racional prevalecera, as Cartas (…), na forma “plausível” como Wollstonecraft equilibrara a “reflexão racional e expressão autêntica dos sentimentos e das sensações”[13], inauguravam um estilo literário sentimental que abriria as portas à literatura romântica. Tal como a sua quase contemporânea napolitana, Mary morrerá jovem, após o nascimento de sua segunda filha.

Extracto das Cartas de Maria Wollstonecraft, relativas À Suécia, Noruega, e Dinamarca e huma breve notícia de sua vida oferecidos ao Bello Sexo Portuguez, Lisboa, 1806. BA 20-II-36.

A BA possui no seu acervo a obra Extracto das Cartas de Maria Wollstonecraft, relativas À Suécia, Noruega, e Dinamarca e huma breve notícia de sua vida oferecidos ao Bello Sexo Portuguez, por Henrique Xavier Baeta, datada de 1806 e que integra o Catálogo da Livraria de D. Carlota Joaquina, demonstrando uma atenção, por parte da soberana, à actualidade literária, e à escrita no feminino. Na introdução, o médico-autor apela a uma ideia cara ao Século das Luzes, isto é, a defesa da educação como modo de alcançar o progresso social, para o qual, o papel das mulheres como primeiras pedagogas de seus filhos, seria fundamental. Tal asserção leva-o a questionar “(…) como será a mulher ignorante capaz de educar seus filhos?”, contrariando as ideias de Rousseau, que cita, defendera no seu Emílio que “Aquellas que passão a vida trabalhando para ganharem o sustento, limitão suas idéas ás do trabalho e do lucro, e todo o seu entendimento como que reside nas pontas dos dedos”[14], afastando-as de cargos e funções públicas. Num tempo de acesos debates quanto ao papel social da mulher que dominaram setecentos, não deixa de ser questionável e contraditório com as ideias de "progresso social", o papel que alguns filósofos da Ilustração destinavam às mulheres.

Henrique Xavier Baeta, no seu prólogo, afastando-se da influência de Rousseau, enaltece a memória de Wollstonecraft, “a qual declarando-se huma firme defensora dos direitos das mulheres, assim as convida a exercitarem sua razão”, citando a autora - “se a sabedoria se faz desejável por si mesma, se a virtude, para merecer este nome, se deve apoiar nos conhecimentos, procuremos fortificar o espirito pela reflexão, até que a nossa cabeça equilibre o coração; não limitemos todos os pensamentos ás triviais occurrencias do dia, ou todo o saber ao simples exame dos corações dos amantes ou maridos (…)”, numa afirmação plena do direito das mulheres a se cultivarem, não só por serem as primeiras mestras de seus filhos, mas para seu enriquecimento próprio e satisfação pessoal[15].

Muito deve a mulher do século XXI ao papel desempenhado por estas damas, no campo social, político e cultural, enquanto pioneiras na afirmação da cultura no feminino.

MMB 





Thesouro de Meninos / Pedro Blanchard. Lisboa, 1817

BA 35-II-56

No Frontispício gravura representando as figuras feminina e masculina, em pose atenta, face a uma figura masculina que exibe um livro. Ao fundo estantes com livros e um mapa na parede, no que parece representar uma igualdade de plano face à aprendizagem. 

(Continua)


[1] PIMENTEL, Leonor da Fonseca, “La Fuga in Egitto Oratório Sagro dedicato a S.A.R. D. Carlotta Borbone, Principessa del Brasile”, ms. BA 54-X-11 (27).

[2] HERCULANO, Alexandre, Opusculos, Tomo IX, 2ª edição, Lisboa, 1898, p. 277. BA 119/120-B-91.

[3] Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Leonor_da_Fonseca_Pimentel. Consulta em 28.02.23.

[4] BA 54-X-11 (27). Ver PEREIRA, Sara Marques, «“La Fuga in Egitto” - Oratória Sagrada oferecida a D. Carlota Joaquina de Bourbon (1792, Pretexto de um texto – Nota Histórica», in Leonor da Fonseca Pimentel . A Portuguesa de Nápoles (1752-1799), coord. SANTOS, Maria Teresa; PEREIRA, Sara Marques, Livros Horizonte, 2001, p. 115-135, no qual a autora transcreve o texto da Oratória.

[5] BA 51-XIII-7.

[6]  URGNANI, Elena, “A obra literária de Leonor da Fonseca Pimentel”, in Leonor da Fonseca Pimentel . A Portuguesa de Nápoles (1752-1799), coord. SANTOS, Maria Teresa; PEREIRA, Sara Marques, Livros Horizonte, 2001, p. 163.

[7] BA 54-X-11 (27).

[8] OLIVEIRA, Américo Lopes; VIANA, Mário Gonçalves, Dicionário Mundial de Mulheres Notáveis, Lello § Irmão, 1967, pp. 1063-1064.

[9] Ver URGNANI, Elena, obra cit., 2001, p. 171.

[10]  Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Mary_Wollstonecraft. Consulta no dia 28.02.23.

[11] MARQUES-PUJOL, Mariana Teixeira, Pensar o sensível: o exemplo das Cartas Escritas Durante uma Breve Residência na Suécia, na Noruega and Denmark (1796), by Mary Wollstonecraft, Revista Enunciação- ISSN: 2526-110x- 2º semestre de 2017 – vol. 2 – Nº 2 – pp. 57-75, p. 62.

[12]  Idem, Idem, p. 67.

[13] Idem, Idem, p. 68.

[14]  BAETA, Henrique Xavier, Extracto das Cartas de Maria Wollstonecraft, relativas À Suécia, Noruega, e Dinamarca e huma breve notícia de sua vida oferecidos ao Bello Sexo Portuguez, Lisboa, 1806, p. VI. BA 20-II-36.

[15] Idem, Idem, pp. XVII-XVIII.