Subsídios para a História da Biblioteca da Ajuda: O reinado de D. Miguel (1828-1834): Parte II


Damos, neste artigo, continuidade à divulgação de informação relativa à História da Biblioteca da Ajuda, com especial ênfase para o período relativo ao reinado de D. Miguel (1828-1834).

[BA. 131/132-H-30, p. 175]
 







Nas primeiras décadas do século XIX, aquando do regresso da Família Real do Brasil, a Real Biblioteca da Ajuda encontrava-se depauperada de obras relevantes, e longe do esplendor com que deveria ser “mantida e conservada (…) a Real Bibliotheca Particular”, segundo se lia no diploma assinado pelo Conde de Basto [1], em nome do Rei, datado de 6 de Fevereiro de 1832 e publicado na Gazeta de Lisboa, nº 36, desse mesmo ano. A principal causa desse empobrecimento fora o envio para o Brasil dos livros que anteriormente a compunham. O objectivo de inverter a situação motivou um conjunto de iniciativas de que aquele diploma, não sendo o primeiro, era um testemunho.

O envio dos duplicados da Biblioteca Pública para a Biblioteca de Sua Magestade no Real Paço da Ajuda. Ainda no reinado de D. João VI, pelo diploma de 30 de Dezembro de 1824, determinara-se que fossem “remetidos à Bibliotheca Pública, de qualquer Officina Typografica, hum Exemplar de todo o Escripto que se imprimir nestes Reinos”, configurando o que se viria a designar como “depósito legal” [2]. A esta medida, que visava essencialmente o enriquecimento da Biblioteca Pública, sucedeu outra, de especial alcance, que estabelecia, pelo Aviso régio de 5 de Novembro de 1825, que da Real Biblioteca Pública fosse enviado para a Real Biblioteca Particular “um exemplar de todas as obras que houver duplicados, entrando” naquele número “o Risco do Edifício da Batalha, e um exemplar de todas as obras dos Authores Classicos Gregos, Romanos e Portuguezes” [3], conforme se podia ler naquele documento.

O propósito daquela disposição régia era o de promover a dignificação e o enriquecimento de uma instituição tão relevante não só para a ilustração, como para a representação das pessoas reais, como era a Real Biblioteca Particular, assim então denominada a livraria do Paço da Ajuda. Outra das medidas empreendidas, com o mesmo desígnio, traduziu-se no confisco das Bibliotecas dos opositores políticos, os “banidos”, “reos ausentes”, isto é, os liberais, opositores do governo “legitimista” de D. Miguel.


As bibliotecas integradas na Real Biblioteca Particular em consequência do “banimento” dos seus proprietários. Os catálogos manuscritos datados de 1831, que se encontram na secção dos manuscritos da Biblioteca da Ajuda, apontam para a incorporação de diversas livrarias, na então Real Biblioteca Particular. Umas, em resultado de doações, como as da Princesa Maria Francisca Benedita (1774-1833) [4], e da Imperatriz-Rainha D. Carlota Joaquina de Bourbon (1775-1830) [5] , ou as de Francisco Maria Angelleli [6] , e de Joaquim de Sá Braga [7] ; outras, em consequência do confisco, determinado pelo governo miguelista, sobre a propriedade de algumas das principais figuras, emigradas, do movimento liberal. Relacionadas com estas, acham-se os catálogos manuscritos das livrarias de Cândido José Xavier, constituída por 389 livros [8] , do “Conde de S. Paio”, contemplando 784 livros e a do Conde de Vila-Flor, com 851 livros [9], bem como alguma documentação avulsa inserta na pasta, do arquivo interno, relativa à gerência de José Manuel Abreu Lima (1825-1834)[10] .         


A consulta do “Acordão da Alçada do Porto contra os Réos Ex Marquez de Palmella e outros em 1829[11], elucida-nos sobre a condenação a que foram sujeitos, naquele ano, os “réos ausentes”, de entre os quais se destacava o então “Marquez de Palmella”, caracterizado como “maligno e insidioso chefe”, que transformara o palácio da Legação Portuguesa em Londres, em “infame e vergonhosa officina de conspirações”. De acordo com a “Devassa e Appensos”, eram os réus “impelidos pelo iniquo e implacável odio” que votavam ao senhor D. Miguel, o que os levara a que, vendo “talvez o próximo castigo de seus insidiosos procedimentos”, terem saído “precipitada ou clandestinamente destes Reinos, com diversos pretextos, mas com a premeditada malicia de inculcar ás nações estrangeiras a existência de huma perseguição iminente”. Assim se descrevia o intento daqueles opositores políticos, no mencionado Acordão.

Eram então citados como “réos ausentes”, o “Marquez de Palmella D. Pedro de Sousa e Holstein [12], Conde de Sampayo Manoel Antonio de Sampayo Mello e Castro Torres e Luzignano [13], Conde de Villa Flor Antonio José de Souza Manoel de Menezes Severim de Noronha [14], Conde de Calhariz D. Alexandre Domingos de Souza e Holstein [15], Conde da Taipa D. Gastão da Camara [16], João Carlos de Saldanha Oliveira e Daun[17] que foi Marechal de Campo graduado, Cândido José Xavier que foi Tenente Coronel do Exercito (…)”, entre outras personalidades.

Este documento permite-nos estabelecer uma relação entre os condenados pela sentença de 11 de Setembro de 1829 e algumas Livrarias incorporadas na Real Biblioteca Particular, cujos catálogos atrás mencionámos. O acórdão ao citar cada um dos acusados do “crime de Lesa Magestade”, de rebelião e dissidência, abria o caminho ao confisco das propriedades daqueles sentenciados. Ausentes do Reino, “banidos” de suas prerrogativas, os acusados deixavam à mercê da Justiça os meios de os sujeitar a sanções.

E o confisco de seus bens, de entre os quais as Livrarias particulares, foi uma das penas infligidas, como prova a documentação existente na Biblioteca da Ajuda. O caso da Livraria do futuro Marquês de Sampaio é exemplar. Em uns folios, não datados, do Arquivo Interno da BA, a que já aludimos, relativos a uma lista de livros, o seu proprietário é identificado como “desembargador, banido, Sampaio”[18]. No catálogo, datado de 1831, da “Livraria do Conde de São-Paio”[19], são inventariadas 784 obras dos séculos XVI-XIX, nacionais e estrangeiras, sobre temática variada.

Outro catálogo, existente na mesma secção de manuscritos da BA, refere-se à Livraria de Cândido José Xavier [Dias da Silva] 1769-1833, (Cod. 51-XIII-1), destacado liberal, “Tenente Coronel do Exército”, conforme o Acordão de 1829[20], condenado à morte por traição, e que foi, posteriormente, secretário particular de D. Pedro IV. Datado de 1831, inclui 389 obras dos séculos XVII-XIX, nacionais e estrangeiras, predominantemente sobre engenharia e assuntos militares. Na contracapa, a lápis, podemos ler “vide catalogo de 1829 desta Livraria organizado em 1829 por ocasião do confisco (secretaria)”.

   
 
 
Ainda relacionado com esta temática dos confiscos das livrarias dos exilados liberais encontramos, em pasta do Arquivo interno[21], a referência à Livraria do Conde de Linhares, em 1832, sendo o auto de entrega redigido nos seguintes termos - “O Solicitador do Real Fisco dos Auzentes do Reyno faz entrega na Real Bibliotheca de Nossa Senhora da Ajuda ao Bibliothecario Mor o Ill.mo Padre Joze Manoel de Abreu e Lima de sessenta e dois caixotes de livros constantes do Cathalogo que os acompanha pertencentes a Livraria do Ex.mo Auzente Conde de Linhares [22] em que se manda remeter para a ditta Bibliotheca, e polla autorização que o mesmo teve por Acordão da Rellação de q. cobrara recibo da ditta entrega para se juntar aos Autos Respectivos. Lx.ª 14 de Fevereiro de 1832. O Soll.or Ant. M.el Cae.to Cª e S.ª ”.

Segue relação completa - “Relação dos Livros da Livraria do Ex.mo Conde de Linhares entregues na Real Bibliotheca de Sua Magestade”.

Alguns bilhetes manuscritos antigos constituem outra fonte importante para o estudo desta temática. Em alguns foi possível encontrar títulos e apelidos relacionáveis com estas figuras de proa do movimento liberal, cujas livrarias foram então arroladas.
A eventual devolução das mesmas após 1834, com a instituição do Regime Constitucional, não impede a localização, na Biblioteca da Ajuda, de obras referenciadas quer nestes mesmos inventários, quer nas citadas fichas manuscritas.

A leitura da relação dos implicados na Alçada de Outubro de 1829, faz-nos concluir serem as fichas, cuja proveniência se reporta a “Calhar.”, relacionadas com a eventual proveniência de obras da Casa do Calhariz, em Sesimbra, por ser D. Pedro de Sousa e Holstein o 13º administrador do morgado do Calhariz, já que o seu filho, 1º conde de Calhariz, D. Alexandre Domingos de Souza e Holstein (1812-1832), morre com 20 anos, em Ponta Delgada, no decurso das manobras das forças liberais contra o regime absolutista, não tendo chegado a ter casa própria.

A não localização de obras levara-nos, em anterior texto, a equacionar a possibilidade de, com a instituição do Regime Constitucional, ter ocorrido a devolução da totalidade dos livros anteriormente confiscados. No entanto, recentes descobertas, fazem-nos pôr de parte tal cenário.

A referência a estas obras será tema de próximo artigo.

Mafalda Magalhães Barros                                                                                                                                      (...)



[1]José António de Oliveira Leite de Barros (1749-1833), Conde de Basto pelo Decreto de D. Miguel de 12 de Janeiro de 1829, foi Ministro do Reino durante os reinados de D. João VI e D. Miguel.
[2] Idem, Idem.
[3] Ribeiro, José Silvestre, Apontamentos Históricos sobre Bibliotecas Portuguesas (...). Universidade de Coimbra, 1914. [Aqui]
[4] BA. 51-XIII-3
[5] BA. 51-XIII-7
[6] BA. 51-XIII-6
[7] BA. 51-XIII-2
[8] BA. 51-XIII-1
[9] BA. 51-XIII-5
[10] Pasta, arquivo interno, da Gerência de José Manuel Abreu Lima (1825-1834).
[11] BA. 97-V-23 (28).
[12] D. Pedro de Sousa e Holstein, (1781-1850), 13º administrador do morgado do Calhariz, entre outros títulos, foi 1º Conde (11-04-1812), 1º Marquês de Palmela e feito Conde de Calhariz o seu primogénito (03-06-1825), 1º Duque de Palmela (04-04-1833). Diz F. Bonifácio que “não havia lugar
  para ele no Portugal de D. Miguel, que de resto já lhe confiscara os bens”, Memórias do Duque de Palmela, D. Quixote, 2011, pag.36.
[13] 2º Conde e 1º Marquês de Sampaio, (1762-1841). Tomou parte activa na primeira tentativa de conquista da Terceira, sendo julgado e condenado à morte, por sentença a 9 de Abril de 1829, a sua família vê os bens sequestrados. Viveu o tempo de exílio na Bélgica, sendo nomeado por Rei D. Pedro IV como mordomo-mor da jovem Rainha D. Maria II. Exerceu este cargo até à sua morte.
[14] 7º Conde, 1º Marquês de Vila Flor e 1º Duque da Terceira, (1792-1860).
[15] 1º Conde de Calhariz, D. Alexandre de Sousa e Holstein (Cádis 1812- Ponta Delgada 1832).
[16] D. Gastão da Câmara Coutinho Pereira de Sande (1794-1866), 1º Conde da Taipa, em 1823.
[17] Futuro 1º Duque de Saldanha, (1790-1876).
[18] BA Arquivo interno ms. pastas D 288 e D 291. Sebastião José de São Payo de Melo e Castro, segundo filho do 1.º Conde de São-Paio. Vid. Marquês de São-Paio. Para a História dos "Setembrizados": O Desembargador Sebastião José de São-Paio, in: Anais da Academia Portuguesa da História, II série, vol. 17. - Lisboa, 1968 (BA 215-VIII-28).
[19] BA. 51-XIII-4
[20] BA. 97-V-23 (28).
[21] In Pasta da Gerência de José Manuel Abreu Lima (1825-1834). Doc.s avulsos sem catalogação Cofre BA.
[22] D. Vitório Maria Francisco de Sousa Coutinho (1790-1857), 2º Conde de Linhares. Era cunhado do Duque de Palmela, D. Pedro de Sousa e Holstein.

Natal


"Oh! But he was a tight-fisted hand at the grindstone, Scrooge! a squeezing, wrenching, grasping, scraping, clutching, covetous old sinner! Hard and sharp as flint, from which no steel had ever struck out generous fire; secret, and self-contained, and solitary as an oyster. The cold within him froze his old features, nipped his pointed nose, shrivelled his cheek, stiffened his gait; made his eyes red, his thin lips blue; and spoke out shrewdly in his grating voice. A frosty rime was on his head, and on his eyebrows, and his wiry chin. He carried his own low temperature always about with him; he iced his office in the dog-days; and didn't thaw it one degree at Christmas."






Com estas palavras, descrevia Charles Dickens o terrível, avarento (e, aparentemente, cruel) 
Scrooge –  que abominava o Natal - na sua obra “A Christmas Carrol”, publicada há 175 anos.

Na véspera de Natal, porém, Scrooge recebe a visita inesperada do seu antigo sócio, Marley, já morto há 7 anos. Este avisa-o de que vai ser perseguido por três espíritos: o do Natal passado, o do Natal presente e o do Natal futuro, levando Scrooge a observa a sua própria morte: sozinho e por todos detestado.
 
Na manhã de Natal, Scrooge desperta como um novo homem, estimulado pela generosidade, pela ternura e a alegria da dádiva: o verdadeiro espírito natalício.
 
Fazendo nossas estas coordenadas de solidariedade e partilha, desejamos a todos os Leitores um Natal doce e imenso, na companhia de uma encantadora obra desta biblioteca:
 
Dialogo pastoril para se representar ao Menino Deos diante do seu presepio
 
 Lisboa : na offic. de Domingos Rodrigues, 1753

11, [1] p. : il. ; 4º (21 cm)

No rosto cena do presépio com a adoração do Menino Jesus pelos pastores.

55-II-36, nº 11 (BAJUDA)


 

Aviso: Alteração do horário de funcionamento da Biblioteca da Ajuda

 
De 17 a 28 de Dezembro: 10h30-13h00 e das 14h00-17h30

Dias 24 e 31 - Encerrada

Agradecemos desde já a compreensão!

Aviso


Por força do despacho nº 11976/2018, de 13 de dezembro, a Biblioteca da Ajuda estará encerrada nos dias 24 e 31 de dezembro de 2018
 
Agradecemos a compreensão dos nossos leitores e desejamos Boas Festas
 

Subsídios para a História da Biblioteca da Ajuda: A Livraria do Paço Velho


Segundo Mariana A. Machado Santos[1], na sua monografia sobre a Biblioteca da Ajuda, a Livraria do Paço da Ajuda apresentava alguma desorganização nos seus anos de instalação no Paço Velho, a nova morada da Família Real, após o terramoto de 1755, no sítio de Nossa Senhora da Ajuda.

A Família Real não dispensara a formação de uma nova biblioteca, no novo local de residência. Instrumento fundamental para a instrução dos príncipes era, de igual modo, um elemento principal na representação do poder monárquico, que se queria afirmar “ilustrado”. Contrariamente ao Paço, construído em madeira, as edificações do Real Gabinete de Física e da Real Livraria, anexa à Igreja Patriarcal, seriam em alvenaria de pedra e cal, o que as viria a salvar do incêndio que, no ano de 1795, destruiu a “Real Barraca”, assim denominado popularmente. Nos anos iniciais, para a instalação da Livraria Real, contribuiriam os “livros salvos do incêndio do Paço da Ribeira[2], aos quais se agregariam outros espólios, dos quais se destacam os provenientes da aquisição, em 1757, à viúva do Conde de Redondo, da Livraria de seu marido, D. Tomé de Sousa Coutinho (1677-1717)[3], e na qual se incluía, entre livros de História, de Geografia, mapas e iconografia, manuscritos e demais preciosidades, o célebre manuscrito do humanista Francisco de Holanda (1517-1585) - “Da Fábrica que falece à cidade de Lisboa”, objecto de especial apreço enquanto documento de reflexão urbanística sobre os empreendimentos necessários a Lisboa, como capital de Império; e os da doação, em 1770-1773, da Biblioteca do Abade Barbosa Machado (1682-1772), negociada por frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas (1724-1814). No entanto, segundo aquela autora, “a instalação era precária, e tanto as ofertas e compras, como os espólios das confiscações políticas (que as houve bastantes), ou as doações” que sucederam, não foram “acompanhadas do trabalho de organização bibliotecnómica que se requereria para que se pudesse usufruir o proveito que esses espólios biblíacos poderiam proporcionar” pois, “andavam muitos livros amontoados, por falta de estantes, por carência de espaço, de salas, de atenção condigna, em suma[4]. Importa acrescentar que a ida da Família Real para o Brasil, e o seu regresso em 1821, tinha introduzido mais um capítulo na História desta instituição, pois por lá permaneceria o núcleo central daquela que seria a futura Biblioteca do Rio de Janeiro.
Desfalcada de importantes conjuntos, como os que ficaram no novo Reino, tornava-se imperioso, então, encetar uma nova etapa de aquisições, trocas e incorporações, pois como diria Francisco Cunha Leão (diretor de 1989 a 2005) -Poucas bibliotecas sofreram destruição e história tão turbulenta como a Biblioteca da Ajuda”. Entre viagens e causas naturais muito se perdera e dispersara.
Nesta longa história de séculos continuam, no entanto, a subsistir incógnitas quanto ao modo como, nas décadas posteriores à vinda da Família Real do Brasil, foram sendo supridas as carências de obras reputadas, necessárias à dignidade de uma Livraria Real.
 
As incorporações

Refere Mariana Machado Santos (diretora de 1954 a 1974), as muitas “confiscações políticas” que terão contribuído para colmatar as falhas existentes naquela Livraria Real, sem, no entanto, chegar a identificar, ou a esclarecer em que momentos, e quais as instituições, ou personalidades, que foram objeto de confisco.
Na história da Biblioteca da Ajuda é comummente utilizado o termo “confisco” para mencionar as Livrarias agregadas no reinado de D. Miguel (1802-1866), pertencentes aos emigrados políticos, “os banidos”, enquanto o termo “incorporado” é usualmente utilizado para as obras provenientes das livrarias dos Conventos extintos, quer as das Casas Jesuíticas, após expulsão da Ordem, em 1759, no reinado de D. José I (1714-1777), quer as decorrentes do decreto de maio de 1834, por iniciativa do ministro Joaquim António de Aguiar (1792-1884). Tal distinção pode, no entanto, ser questionada, pois tanto foram confiscados os bens aos exilados liberais, como o foram as Livrarias afectas aos conventos dos Jesuítas, banidos em 1759, como, posteriormente, as dos conventos extintos, pelo decreto liberal de 1834.

Nesta ordem de ideias, no que respeita a “confiscações políticas”, grosso modo, podemos considerar três momentos que contribuíram para o enriquecimento dos espólios das instituições patrimoniais, de entre as quais sobressai, como beneficiária, a Biblioteca da Ajuda:

- As ocorridas na sequência da expulsão dos Jesuítas, em 1759, no reinado de D. José I, que permitiu a integração de obras impressas e manuscritas das Livrarias de Casas da Companhia, tais como a de S. Roque, a de S. Antão, a de Coimbra, entre outras. Esta incorporação foi feita, em parte, através da Livraria do Colégio dos Nobres[5], onde a “Livraria jesuítica” se encontrava depositada;

- As ocorridas no reinado de D. Miguel (r. 1828-1834) e que se relacionam com as Livrarias confiscadas aos opositores políticos exilados;
 
- E, na sequência do banimento de D. Miguel (1802-1866) e da afirmação do governo de D. Pedro IV (1798-1834), as que decorreram da extinção das ordens religiosas regulares, isto é dos Conventos, Mosteiros, Colégios e Hospícios, em 1834, e das consequentes incorporações dos livros pertencentes às Livrarias daquelas casas religiosas, relativamente às quais, a que teria maior impacto na Biblioteca da Ajuda, seria a dos Oratorianos das Necessidades, cuja incorporação data de 1857, durante a vigência de Alexandre Herculano (1810-1877) como bibliotecário-mor[6], já no reinado de D. Pedro V (1837-1861, reinou a partir de 1853).

 Do Reinado de D. Miguel ao advento do Regime Constitucional
Importa-nos agora observar a informação relativa ao reinado de D. Miguel (1828-1834), por ser um período relativamente pouco tratado, no que respeita a história da Biblioteca e que correspondeu à gerência do bibliotecário-mor P. José Manuel de Abreu e Lima[7]. Nessa ocasião ter-se-ia procedido a entrega de livros provenientes do extinto Colégio dos Nobres, do qual teriam vindo para a Ajuda, “em 1831 e 1832”, oito mil cento e vinte e quatro volumes, de entre os quais o celebrado Cancioneiro dos Nobres, atualmente denominado da Ajuda.

Para além desta importante remessa, temos ainda notícia, em alguma documentação manuscrita inédita, que teriam sido entregues várias Livrarias na então Real Biblioteca da Ajuda, que podem configurar o “confisco político”, nomeadamente as Livrarias pertencentes ao Marquês de Sampaio, ao Duque da Terceira, ao Duque de Palmela, ao Conde de Linhares, ao Visconde de Laborim, ao Marquês de Ponte de Lima e Condessa de Óbidos, bem como a de Cândido José Xavier[8], destacado elemento das hostes liberais.
Diversos folios manuscritos contêm as listas de livros entregues no reinado de D. Miguel, quer os oferecidos, quer os confiscados, como é o caso do “Catálogo dos Livros do desembargador, banido, Sampaio”.

Num outro folio, igualmente manuscrito, são mencionadas as obras que teriam ido “para o Quarto de El Rei a 13 de Maio de 1832” e que seriam as seguintes “10 Vol.s da Galeria do Museu de França, e os Vol.s da Revolução Français, todos pertencentes á Livraria do Palmella” [sic].

Refere o mesmo folio ter ido, na mesma ocasião, para o “Quarto da Açafata da Snr.ª Infanta D. Maria de Assumpção a Obra intitulada Theatro de Corneille 3 Vol.s em 8º pertencentes a Livraria que foi da Casa d´Óbidos[9]. No entanto, relativamente a esta, surge à frente, em letra maiúscula, um E que nos faz supor que teria sido devolvida, ou entregue.
                                                                                                                          
Tal suposição fundamenta-se em documentação, já da gerência do P. António Nunes (1837-1839)[10] que menciona a posterior devolução das Livrarias aos seus anteriores proprietários, o que teria ocorrido no ano de 1839. Estávamos já então na vigência de Alexandre Herculano como bibliotecário-mor e não admira que o novo regime constitucional quisesse restituir, aos seus apoiantes, os bens que lhes haviam sido confiscados na governação miguelista.

Alguns bilhetes (fichas) manuscritos, antigos, que não conseguimos datar com segurança, mencionam obras afetas a estas antigas livrarias. Pela similitude da grafia, poderemos supor tratarem-se de documentos dos anos trinta, inícios de quarenta, de oitocentos, correspondentes ao período de entrega daqueles espólios. Com base naquelas fichas manuscritas, e após pesquisa na Biblioteca da Ajuda, foi possível localizar na obra “La Devotion au Sacré Coeur de Notre-Seigner Jesus-Christ”, datada de 1750, o ex-libris de D. Helena Xavier de Lima, da Casa dos Marqueses de Ponte de Lima, o que nos faz questionar a entrega da totalidade das obras afetas às Livrarias dos “banidos”, ao tempo de D. Miguel. 



No que respeita aos bilhetes que referem “Calhariz” como proveniência, reportando-se essencialmente a manuscritos, ainda não foi possível localizar nenhum exemplar, pelo que a sua devolução poderá ter ocorrido com a instituição do Regime Constitucional.

Em próximos artigos, daremos continuidade à divulgação de informação sobre este período da história da Biblioteca da Ajuda, até ao momento, menos conhecido.

 MMB



[1] Santos, Mariana A. Machado Santos, Alexandre Herculano e a Biblioteca da Ajuda, Coimbra, 1965.

[2] Santos, Mariana A. Machado Santos, Alexandre Herculano e a Biblioteca da Ajuda, Coimbra, 1965, pág.. 14.

[3] O Catálogo de 1711, ainda era vivo o Conde, existe na Universidade de Coimbra. Inclui manuscritos do Visconde de Vila Nova de Cerveira.

[4] Idem, Idem.

[5] Conforme se pode ler em nota manuscrita, inserta na pasta D 288: “A Livraria jesuítica que estava depositada no Collegio dos Nobres desde a extinção da Companhia, veio em grande parte para a Bibliotheca da Ajuda em 1832. (Apontamento extraído dumas notas bibliográficas de Rodrigo Vicente d´Almeida relativas ao Missal Bracharense, 1498)”.

[6] Santos, Mariana Machado, Alexandre Herculano e a Biblioteca da Ajuda, Coimbra, 1965, pag.7. Segundo esta autora “O lugar para que Alexandre Herculano foi nomeado não era de bibliotecário, nem o de um director na vulgar acepção do termo: era o de uma espécie de superintendente, como que inspector, das bibliotecas dos Paços Reais da Ajuda e Necessidades e do Real Gabinete de Física, anexo à Biblioteca da Ajuda.” Herculano desempenhou funções de 1 de Agosto de 1839, a 13 de Setembro de 1877, atravessando, à frente da Biblioteca Real, o reinado de D. Maria II, a regência de D. Fernando II, e ainda os reinados de D. Pedro V e de D. Luís.

[7] O Padre José Manuel de Abreu Lima foi demitido por miguelista, tendo morrido no ano de 1835 em casa dos Condes de Redondo no exercício de funções eclesiásticas. Inocêncio da Silva, no seu Diccionário Bibliográfico Português, Tomo V, 1860, refere que o P.e José Manuel de Abreu e Lima perdeu o lugar “em consequência da notavel afeição que mostrára ao sr. D. Miguel e ao seu governo”.

[8] BA Arquivo interno ms. pastas D 288 e D 291.

[9] BA Arquivo interno ms. pasta D 288.

[10] BA Arquivo interno ms. pasta D 291. Segundo Mariana A. Machado Santos, obra cit., pag.6, o P.e António Nunes fora nomeado Encarregado da Real Livraria do Paço da Ajuda em 11-V-1837, sucedendo ao Conselheiro Doutor António Nunes de Carvalho que estivera no cargo menos de um ano.