"Fazer Gazeta" (2): O terramoto



O terramoto, seguido de maremoto e incêndios vários, teve início cerca das 9h40m do dia 1 de Novembro de 1755,  dia de todos os Santos "Festum Omnium Sanctorum" fazendo um elevado número de mortos...
 
A escassez de notícias referentes ao "memorável" acontecimento em Lisboa, na Gazeta, leva-nos a supor que as oficinas em que laboravam, na Rua Nova dos Ferros situada na baixa da cidade e uma das mais importantes artérias da cidade, tenha sido bastante afetada pelo terramoto...
 
n.º 46, 13/11/1755
N.º 45, 6/11/1755












Enquanto que em Portugal, pelo menos no caso de Lisboa pois o Algarve mereceu destaque diferente, as notícias foram dadas com parcimónia, já em frança a Gazette dedicou-lhe algum espaço...


Gazette de France n.º 47, 22/11/1755
Gazette de France n.º 47, 22/11/1755






    
 







"Fazer Gazeta" (1)

Dicionário de Expressões Correntes, de Orlando Neves:

“Fazer gazeta”

Inicialmente, com o sentido de «faltar às aulas», a expressão usa-se hoje quando se falta a qualquer compromisso ou obrigação.

«Gazeta» foi, de facto, a primeira designação dada aos periódicos.

‘Gazzetta‘ (de início: gaxeta) era uma pequena moeda de reduzido valor (due soldi), o custo exato de cada exemplar da Gazzette delle Novità, periódico semanal manuscrito, de pequeno formato, vendido em Veneza no séc. XVI, contendo notícias oficiais sobre a situação do império turco.

Curiosamente, há também quem afirme que o termo provém de “gazza”, em português: pega, a ave palradora.

As primeiras «gazetas» não eram redigidas por jornalistas profissionais, obviamente, no sentido de pessoas inteiramente dedicadas à sua composição.

Escreviam-nas aqueles que tinham capacidades e conhecimento para o fazer, mas que ganhavam a vida noutras profissões. Muitas vezes, por necessidade de ultimarem a saída das publicações, tinham de faltar aos seus ofícios para irem «fazer gazeta». Habitualmente, essas faltas consistiam na ausência às aulas, atendendo a que seriam, muito provavelmente, estudantes os primeiros «jonalistas».

A Gazeta de Lisboa, um dos primeiros periódicos a circular em Portugal, teve início a 17 de Agosto de 1715



No dia 10 de Agosto, o jornal apresentava o seu primeiro número com a denominação de "José Freire de Monterroio Mascarenhas, que dirigiu o jornal até à sua morte, em 1760.
Notícias do Estado do Mundo". O seu redactor era

BA. 170-III-172







Em 17 de Agosto de 1715, o número dois aparecia já com o título de "Gazeta de Lisboa", título que se manteve até 30 de Dezembro de 1717. e esteve na génese do jornal do governo,
hoje - e desde 1976 - designado Diário da República.

BA. 170-I-172 (1)
 

 Anteriores a esta, refira-se a existência da Gazeta da Restauração (1641-47) e a circulação das folhas periódicas “Relações” e “Mercúrios”.



[Mercúrio Português com as novas da guerra entre Portugal e Castela - Foi director e redactor António de Sousa de Macedo, considerado como o primeiro jornalista português. Lisboa, na Of. de  Henrique Valente de Oliveira, [fl.164?-167?]. Anos de 1663 a 1666 e Julho de 1667]



BA. 170-II-173





Lançada a 10 de setembro de 1808, no Rio de Janeiro, a Gazeta do Rio de Janeiro foi o primeiro periódico impresso no Brasil, sob a égide de D. João VI e marca o início da imprensa no país. O jornal era publicado duas vezes  por semana (quartas-feiras e sábados) e o seu conteúdo era oficial, consistindo basicamente em comunicados do governo. Com a Independência a publicação da Gazeta do Rio, denominação corrente a partir de 29/12/1821,  tem o seu término com a edição nº 157, de 31 de dezembro de 1822.  Com a independência, a Gazeta deixou de circular tendo sido substituída pelo Diário Fluminense, de Pedro I e o Diário do Governo, de Pedro II.



Gazeta n.º 1, 10 de Set. 1808
Gazeta n.º 2, 17 de Set. 1808

Nur al-Din Ibn Ishaq Al-Bitruji (N.???? – M.c.1204)

Conhecido no Ocidente por Alpetragius, latinização do seu nome, nasceu em Marrocos. Fixou-se em Sevilha (Isbilah) onde desenvolveu os seus estudos, e foi, muito possivelmente, discípulo do filósofo e sábio Ibn Ṭufayl.

Al-Bitruji foi um dos mais importantes astrónomos do seu tempo, tendo a sua obra -'Kitab-al-Hay'ah - conhecido ampla divulgação e merecido reconhecimento na Europa entre os séculos XIII e XVI.

Primeiramente traduzida para Hebraico, por Mosheh ben Tibbon, em 1259, foi depois vertida desta língua para Latim, por Calo Calonymos, também tradutor de Averroes, com edições impressas em Viena e Veneza, no ano de 1528.

Nessa obra, Alpetragius, enunciou - sem êxito, inicialmente, mas reconhecida como alternativa válida - uma teoria que ultrapassava as dificuldades físicas inerentes ao modelo geométrico de Ptolomeu, pois seguira rigorosamente o princípio aristotélico, logo, também, homocêntrica, de movimento perfeito e circular, posteriormente “corrigida” e assumida como órbita elíptica.

Na primeira metade do séc. XX, como homenagem ao astrónomo e filósofo, foi atribuído o nome de Alpetragius a uma cratera da lua, com as seguintes coordenadas: Lat: 16.0°S, Long: 4.5°W, Diam: 39 km, Prof: 3.9 km.

A Biblioteca da Ajuda possui, incorporado na sua rica coleção de cimélios, um dos capítulos da obra 'Kitab-al-Hay'ah, cuja consulta e leitura recomendamos
.


          


ALPETRÁGIO [Aber Ishãq Al- Bitruyi]

Alpetragii Arabi planetarvm theorica


 Lucantonio Giunti
phisicis rationibus probata, nuperrime latinis litteris mandata a Calo Calonymos Ebreo Neapolitano / Alpetragius Arabus

Veneza: Luceantonii lunte Florentinianno; [1531]

27, [1] f. ; 2.º. marca de imp. 

 
 BA. CIM. 50-XV-4, n.º 4



Dia Mundial dos Correios: Os "itinerários"

Neste Dia Mundial dos Correios, 9 de Outubro, a Biblioteca da Ajuda lembra os "itinerários". Criados como 'livros práticos' para os viajantes - profissionais, como a posta ordinária e os 'enviados', ou de lazer e complemento educativo do fidalgo a partir do séc. 17 – o exemplar mais antigo que a BA possui à guarda é o
Memorial ou abecedário de los mas principales camiños de España. Ordenado por Alonso de Meneses correo. Va por abecedário, como por la tabla se vera. Com el camiño de Madrid a Roma. Va añadido al cabo el Repositorio de las cue[n]tas reduzidos los escudos a como su Magestad manda valgan. – Impresso en Toledo : en casa de Juan de Ayala. Año de M. D.L. VIII. BA. 17-IV-43

Este modelo impresso, indicando primeiro os caminhos regularmente utilizados pela posta tendo por público-alvo os viajantes não profissionais, é complementado com informações sobre câmbios e advertências sobre o tipo de caminho.
 
 
 
 
 



No séc. XVIII, época de viagens e passeios, o conhecimento necessário aos viajantes inclui já as distâncias em quadros, os locais de mudança e descanso de cavalos, os caminhos de carruagem ou de cavalo, informações geográficas mínimas antecedendo os guias e índices e/ou resumos dos caminhos.
BA. 21-V-36
BA. 21-V-35

 Itinerario Español o Guia de caminos.
 


Madrid, 1767
Alcalá, 1798



















O sentido de livro prático e necessário está patente no exemplar de um guia português do fim do séc. XVIII, cuja organização interna – capítulo para caminhos de Portugal, outro para Portugal e Espanha, outro ainda para as principais cortes da Europa – demonstra uma síntese de experiência anterior e evolução tipográfica. Comum a todos a sua pequena dimensão, isto é, a forma adapta-se ao conteúdo, sendo advertido num deles que foi voluntariamente que se não escreveu mais para não ficar um volume difícil de transporter.

GUIA DE VIAJANTES ou roteiro de Lisboa para as Cortes e cidades principaes da Europa, villas, e lugares mais notaveis de Portugal, e Hespanha. Lx.: Of. Francisco Luiz Ameno, 1791. – BA. 21-V-4
 Aos correios – a posta ordinária, "os próprios" - viajantes profissionais mais antigos, devemos o conhecimento de "experiência feito" que permitiu pela partilha de informações a criação dos itinerários realistas e pragmáticos que proliferam na Europa do séc. XVIII e constituem os antepassados dos "Guias de Viajem" actuais.
 

Aviso


Informamos que, por motivo de desinfestação geral, a Biblioteca da Ajuda encerra o serviço de

leitura na próxima 5ª feira, dia 4 de Outubro.


O horário habitual será retomado no dia no dia 8 de Outubro, a partir das 14h00

AVISO

Informamos que, devido à realização das actividades que irão decorrer, por ocasião das Jornadas Europeias do Património 2018 (28 a 30 de Setembro), a Biblioteca da Ajuda, estará encerrada, à leitura, nos dias 27 e 28 de Setembro (quinta feira e sexta feira), e dia 1 de Outubro (segunda -feira) até às 13h00. 
 
 Agradecemos a compreensão dos nossos leitores para esta situação.

Jornadas Europeias do Património 2018


AVISO: Alterações no horário de funcionamento da Biblioteca da Ajuda

Informam-se os Leitores que de 13 de Agosto até 14 de Setembro a Biblioteca da Ajuda realiza o seguinte horário de abertura ao público:

10h30-13h00

14h00-17h30


A partir de 16 de Setembro (segunda-feira) será retomado o horário regular.


Carlos Seixas: 11 de Junho de 1704 - 25 de Agosto de 1742

Carlos Seixas foi o mais relevante e profícuo compositor português de música para tecla da primeira metade do século XVIII.

Filho de Francisco Vaz, organista da Sé de Coimbra, substituiu seu pai – e mestre - nessas funções com apenas 14 anos de idade.

Em Lisboa impôs-se como organista, cravista e compositor. Foi professor também.

Compôs, segundo testemunhos da época, perto de setecentas Toccatas ou Sonatas, tendo só cerca de cem destas sobrevivido à destruição do terramoto de 1755.

 Virtuoso no cravo e inovador na composição, "(…) Carlos Seixas poderá ter criado as primeiras peças concertantes para cravo e orquestra”, segundo as palavras de Andreas Staier, um dos mais aclamados intérpretes de Seixas. E acrescenta “(os concertos) estarão entre os primeiros para tecla da História”, podendo ser “anteriores aos concertos para cravo de Johann Sebastian Bach”.

 Domenico Scarlatti, ao tempo Mestre da Capela Real portuguesa, cedo reconheceu o talento de Seixas. Sobre este conhecimento mútuo, muita tinta correu já sobre a possível influência que o mestre italiano poderá ter tido sobre a obra de Seixas, polémica que não nos compete neste espaço.

Importa, sim, sublinhar que as sonatas de Seixas universalizaram-se e perpetuam-se como autênticas pérolas do período Barroco.

 A Biblioteca da Ajuda, ao assinalar a data de nascimento de Carlos Seixas, em sua homenagem, sugere a consulta de partituras de duas Tocatas deste compositor, com a cota:

 BA-48-I-2 (15)








BA. 48-I-2 (16)


As primeiras traduções dos sermões do P. Antonio Vieira em inglês:

                   

Antonio Vieira: Six Sermons / Edited and translated by Mónica Leal da Silva and Liam Brockey . - New York: Oxford University Press , 2018






Oxford University Press [aqui]
Google preview [aqui]





 “Missionary, diplomat, theologian, pulpit preacher, social critic, political strategist, and one of the finest writers of the Portuguese language, the Jesuit António Vieira was a remarkable figure of the Baroque age whose life has remained relatively unknown to English-speaking readers. This excellent edition and translation of his sermons finally gives them access to Vieira's talents and thought, and helps to restore him to the prominence he deserves."

Stuart Schwartz, George Burton Adams Professor of History and Chair of the Council on Latin American and Iberian Studies, Yale University

 "The reader will find here six of António Vieira's sermons, most available in English for the first time. Brilliantly translated and contextualized, the sermons reflect the ways a leading Jesuit grappled with the bewildering forces of globalization, commerce, slavery, and morality, forces the Jesuits themselves unleashed. How to find providential meaning in a Portuguese global empire built on the backs of both slaves and Jesuit missionaries? How to have providential certainty in a world bedeviled by greed, growing religious apathy, and geopolitical uncertainty? How to be a prophet in a new, yet weakened Braganza-led Israel? Out of hundreds of possible sermons, the authors have masterfully picked a handful to illuminate a complex, deeply contradictory world of faith and violence."
      Jorge Cañizares-Esguerra, Alice Drysdale Sheffield Professor of History, Univ. of Texas at Austin

"António Vieira is a major religious, cultural, and political figure in the early modern world, little known outside the field of Iberian history. This outstanding translation of selected sermons will contribute to integrate his thought in the long-term complex analysis of colonialism, slavery, racism, and national assertion."
         Francisco Bethencourt, author of Racisms from the Crusades to the Twentieth Century


Obras recebidas na Biblioteca da Ajuda:

A Música no Convento de Cristo em Tomar: (desde finais do século XV até finais do século XVIII) / Cristina Maria de Carvalho Cota. - [Lisboa]: Edições Colibri; CESEM - Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical - UNL, 2017

Esta obra vem revelar o passado musical do Convento de Tomar, casa principal daquela que foi considerada a mais poderosa e emblemática ordem religiosa portuguesa: a Ordem de Cristo.
Retomando a única e sumária investigação realizada há cem anos por Sousa Viterbo sobre os músicos deste convento, concluiu-se que este foi um dos mais importantes centros de actividade musical em Portugal, equiparável a Coimbra, com uma Capela reconhecida pela excelência do seu nível musical em finais do século XVI, e uma prática instrumental e vocal majestosa durante o século XVII, de produção musical própria assinada por Frei Fernando de Almeida (1604-1660), o mais destacado compositor da Ordem e exemplo marcante da música maneirista portuguesa.
Neste livro se oferece a mais completa biografia deste compositor, que infelizmente teve um fim trágico e injusto às mãos da Inquisição. A prática litúrgico-musical na Ordem do Templo foi assunto inesperado e original de estudo que se tornou um ponto de partida para a compreensão do cerimonial e prática litúrgico-musical da Ordem de Cristo, considerada a sua sucessora em Portugal.
Finalmente, a descoberta de um espólio musical tomarense, inteiramente inédito com ligação à igreja de S. João Baptista, em Tomar, poderá constituir a primeira peça do puzzle, ainda por reconstituir, do repertório musical das igrejas da Ordem de Cristo. [Cristina Cota]



Mistérios e viagens de um manuscrito......

A Factura de los acopios q.º Dn. Jn. B.ta Ardisson ha hecho en Paris p.ª la Guarda Ropa de S. M. M. la Reyna N.S., y Sr.ª Infanta D. M.ª Franc.ª de Asis. Paris 1816. 4º &.

A recente notícia da aquisição, para o Palácio Nacional de Queluz, pela Parques de Sintra Monte da Lua [aqui], de um manuscrito relativo a compras efectuadas pela Rainha D. Carlota Joaquina (1775-1830), no ano de 1816, suscitou alguma curiosidade no meio museográfico, pela possibilidade de acesso a um documento pormenorizado sobre os consumos sumptuários por parte de um elemento preponderante da corte portuguesa, no início de oitocentos. Uma análise detalhada da documentação permitirá avaliar eventuais acertos, ou desacertos, desta com os principais centros europeus difusores da moda, com grande destaque para Paris, onde boa parte das compras teriam sido efectuadas, cidade que, desde o início do séc. XVIII, ditava os modelos a seguir, nas artes da mesa, na etiqueta, no vestuário, entre outros domínios da representação social.

Para a escrita da História são indispensáveis documentos sendo as Bibliotecas e os Arquivos os guardiães primeiros desses testemunhos, assim como os Museus o são para os objectos artísticos. Quer sejam fontes manuscritas, impressas, ou iconográficas, servem de suporte a narrativas, fundamentam teses, permitem contextualizar factos, auxiliam o progresso do conhecimento, pelo que o enriquecimento das colecções nacionais, mediante a aquisição no mercado destes testemunhos dispersos, é algo de saudar.

Esta notícia veio, em simultâneo, chamar a atenção para o facto de um manuscrito, com título idêntico, constar do Catálogo da Livraria que foi de S. Mag.de a Senhora D. Carlota Joaquina de Bourbon, ms. BA-51-XIII-7, existente na Biblioteca da Ajuda.

Ora, apesar da referência no mencionado Catálogo da Factura de los acopios q.º Dn. Jn. B.ta Ardisson ha hecho en Paris p.ª la Guarda Ropa de S. M. M. la Reyna N.S., y Sr.ª Infanta D. M.ª Franc.ª de Asis. Paris 1816. 4º &, esta não foi, no entanto, localizada no acervo da Biblioteca da Ajuda, contrariamente a grande parte de outras entradas do mesmo, o que nos leva a supor que seja aquele o manuscrito que outrora pertenceu à Livraria da Imperatriz-Rainha, ou que, em alternativa, seja uma cópia em tudo semelhante ao mesmo.


A investigação, feita no âmbito do trabalho desenvolvido na Biblioteca da Ajuda permitiu, porém, que uma dúvida fosse esclarecida. Tal relaciona-se com o facto de o signatário das facturas  ter sido João Baptista Ardisson, súbdito espanhol natural de Madrid, e não uma suposta Baronesa de Ardisson, nome que constava das notícias iniciais divulgadas na Comunicação Social [1]. Uma parte da documentação relacionada com este assunto encontra-se na Biblioteca Nacional de Portugal, nos Manuscritos Reservados e, a partir desta, sabemos que fora o espanhol, que segundo o próprio, desde 1807 prestava serviços à Coroa de Portugal, incumbido de levar à corte do Rio de Janeiro, “correspondência” na qual “pedia o Rey D. Fernando 7º para Espoza a Snr.ª Infanta D. Maria Isabel de Bragança e a Snr.ª Infanta D. Maria Francisca de Assis p.ª Espoza de seu irmão”[2], conforme se pode ler nos autos da Pertenção de D. João Baptista Ardisson, subdito espanhol, e de sua mulher D. Victoria Catharina de Oiamatia. - Lisboa  1831-1839, BN. mss-33-3[3], guardados na mencionada Biblioteca.  Assim, “convencionados que forão os contratos dos cazamentos” recebeu Ardisson “os competentes despachos” para regressar à corte de Espanha. Partindo do Rio de Janeiro em Março de 1816, “chegou a Madrid no princípio de M.o do m.mo anno” e logo o rei-noivo o incumbiu de novo serviço. Agora o de ir a Paris com o objectivo de “comprar vestidos, infeites e ornatos” e “apromptar todas as galas e mais objectos necessários p.ª ambos os cazamentos”, segundo as “ordens que trazia do Rio de Jan.ro”. Ali se demorou por 3 meses e conforme alega na mencionada Pertenção (….) por “não haver fundos em conseq.cia da Invasão Francesa”, e zeloso do serviço do qual fora incumbido, aplicou os seus próprios recursos e crédito pois, desejava “fazer serviços e desempenhar as Ordens q.lhe tinhão sido dadas”.
 
Nesta missão despendera “mais de 140 mil cruzados”, regressando a Madrid “hum mês antes da chegada das Augustas Noivas”, já munido das encomendas reais, regozijando-se de tudo ter merecido a “completa aprovação de todas as Reas Pessoas”. Ora, pertencendo aos “Pays das Augustas Espozas pagar metade de toda a despeza”, passados mais de vinte anos, apenas fora reembolsado de uma parte da mesma. E a esta dívida somava-se uma outra “privativa e particular de S. Mag.de a Imperatriz Rainha a Snr.ª D. Carlota Joaquina de Bourbon da quantia de 9.208$960 r. motivada d´objectos a q. o supl. satisfez de Sua ordem no Anno de 1815 e 1816”. Esta dívida fora reconhecida pela “Augusta devedora” que, por Decreto de 12 de Agosto de 1829, a mandara pagar em prestações anuais de 500$00. Porém, com a morte da soberana em 1830, suspenderam-se esses pagamentos, o que motivava Ardisson a dirigir nova súplica, em 1839, agora à Rainha D. Maria II (1819-1853), neta da ilustre devedora.
A afirmação de Max Weber de que “status groups are stratified according to the principles of their consumption of goods as represented by their special styles of life[4], isto é, a necessidade de assegurar uma dimensão de representação simbólica do poder régio determinava a aquisição de objectos sumptuários, independentemente das disponibilidades financeiras de cada momento. Aliás, quem iria recusar fornecer à Casa Real os bens de que necessitava? Teoricamente os recursos seriam quase que ilimitados. No entanto, na prática, nem sempre a organização da “contabilidade” permitia satisfazer prontamente os credores, como este e muitos outros exemplos testemunham.

Sobre o elenco dos artigos que justificaram as quantias reclamadas por João Baptista Ardisson poderá, provavelmente, o manuscrito - agora pertença do Palácio Nacional de Queluz - lançar alguma luz, uma vez que o idêntico que pertenceu à Livraria de D. Carlota Joaquina há muito que não se encontra na Biblioteca da Ajuda. Será o mesmo? Será uma cópia? Teria o mesmo integrado o conjunto de manuscritos e impressos que seguiram com D. Manuel II (1889-1932) para o exílio, teria estado na posse de sua Mãe, a última Rainha de Portugal, D. Amélia de Orléans (1865-1951), que o levaria quando partiu de Portugal, na sequência da implantação da República? Não temos resposta para estas questões. Apenas uma certeza: a que o regresso do manuscrito, agora adquirido, estimulará mais investigação e ajudará a melhor esclarecer as dúvidas agora suscitadas, bem como a aprofundar o conhecimento sobre a relação da coroa portuguesa com os centros europeus difusores de correntes estéticas, contrariando a ideia de uma corte alheada e desfasada do que se passava além Pirenéus, como certa historiografia oitocentista quis fazer passar.

MMB

[1] Link Publico [aqui]
[2] As infantas portuguesas, filhas de D. Carlota Joaquina (1775-1830) e de D. João VI (1767-1826), mais concretamente, D. Maria Isabel (1797-1818) e D. Maria Francisca de Assis (1800-1834), casaram com, respectivamente, Fernando VII de Espanha (1788-1833) e seu irmão Carlos Maria Isidro (1788-1855).
[3] Link BN [aqui]
[4] M. Weber, “Class, Status, Party”, em Class, status and power, Londres, 1954, p.73, em Ethos aristocrrático y estructura del consumo: la aristocracia cortesana portuguesa a finales del Antigua régimen, Nuno Monteiro, F. I. H. S. UNED Valencia.

DIA MUNDIAL DA POESIA – 21 de Março




Entre os códices de literatura desta Biblioteca, encontra-se o manuscrito da obra O Condestable Dom Nunalurez Pereira, de Francisco Rodrigues Lobo, cuja 1ª edição foi impressa em Lisboa em 1610, por Pedro Crasbeck. A obra é dedicada ao Duque D. Teodósio II, com quem terá convivido.




 

Francisco Rodrigues Lobo nasceu em Leiria, c. 1580, filho de cristãos-novos. Foi um dos mais conhecidos e importantes discípulos de Camões, distinguindo-se na literatura portuguesa como um dos introdutores do gongorismo barroco, em cujo coletânea do séc. XVIII, A Fénix Renascida, vários dos seus poemas foram incluídos e assim divulgados [aqui]. É autor da obra em prosa Corte na aldeia, ficção notável composta por dezasseis diálogos didáticos que descrevem a vida cortesã da época e a desilusão da nobreza portuguesa por ter perdido a sua corte.

Morre em 1621 num naufrágio entre Lisboa e Santarém.
 

 Primeira edição (1610) disponível na BND (Biblioteca Nacional Digital) [aqui 

FICHA DA OBRA:

N.º de Inventário: BA 49-III-70

 Titulo: O Condestable Dom Nunalurez Pereira

Data: ca 1603 [data tirada da ded.]

Descrição: Cod. Ms. em papel, [1] 180 fls. – Enc. em pergaminho. - Notas marginais

Pertence: Biblioteca das Necessidades. — ded. ao Duque de Bragança, D. Teodósio II, pai de do futuro D. João IV, em Setembro de 1603.

Publicado em 1610, Lisboa, oficina de Pedro Crabeeck.

Dimensões: 4.º (21,5x156mm)

Localização: Biblioteca da Ajuda (cofre)

Estado de conservação: Razoável. Papel com alguma fragilidade. Manchas de humidade

Importância: Original, autógrafo, em português, de Francisco Rodrigues Lobo (1580-1621) é um dos mais importantes discípulos de Camões. É considerado como o iniciador do Barroco na literatura portuguesa. Manuscrito publicado em 1610, Lisboa, na Oficina de Pedro Crasbeeck

Bibliografia:
O condestable de Portugal Dom Nunalvres Pereira / Francisco Rodrigues Lobo ; ed. lit. Carlos Alberto Ferreira ; pref. Luís Silveira. Lisboa : Inspecção Superior das Bibliotecas e Arquivos, 1958.

Alguns fls do ms. da BA:


fl. 1


fl.1v-2


fl. 2v-3


fl. 3v-4
fl. 4v-5
fl. 5v-6