Aviso: Encerramento temporário do Serviço de Reprodução

Devido ao período de férias, o Serviço de Reprodução estará encerrado de 17 de agosto a 7 de setembro.

O serviço retomará o seu funcionamento habitual no dia 8 de setembro.

Agradecemos a compreensão.

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We would like to inform our readers that, due to the holiday period, the Reproduction Service will be temporarily closed from 17 August to 7 September.


Normal service will resume on 8 September.

We thank you in advance for your understanding.

Neste dia...

No Real Paço da Ajuda, nasceu, às duas horas da madrugada, de 31 de julho de 1865, o Infante D. Afonso Henrique Maria Luís Pedro de Alcântara Carlos Humberto Amadeu Fernando António Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis João Augusto Júlio Valfando Inácio de Saxe-Coburgo-Gotha e Bragançade Saxe-Coburgo-Gota e Bragança, filho dos reis D. Luís I e D. Maria Pia. Era o segundo filho do casal real, irmão mais novo do futuro Rei D. Carlos I, e recebeu ao nascer o título de Duque do Porto (3º) —  distinção real atribuída, por tradição, aos segundos filhos dos monarcas.

Ao contrário do irmão, não lhe cabiam as responsabilidades de herdeiro do trono, pelo que D. Afonso seguiu uma carreira militar. Ao longo da vida, viria a acumular diversos cargos e honras: foi o 24.º e último Condestável de Portugal, o 109.º governador e o 51.º e último Vice-Rei da Índia Portuguesa, entre outros.

 

Figura discreta, mas sempre presente na vida pública, o Duque do Porto é igualmente recordado, em em fotografias, ao volante de um dos seus automóveis, símbolo de uma modernidade que despontava em Portugal. 


BA reg. 5179













A Biblioteca da Ajuda, em jeito de homenagem deixa [aqui] a documentação variada que faz parte do seu acervo.

Manuscritos fora da Estante: Encontros com o Património | 21 de julho 2026 | 15h00 | 2.ª sessão

Após o sucesso da primeira sessão, do ciclo de encontros “Manuscritos fora da estante – Encontros com Património” [aqui], a segunda sessão continua a 21 de julho, dando continuidade a uma viagem pelo mundo dos manuscritos e das histórias que eles ainda têm para contar, pela voz dos Académicos que divulgam, assim, o conhecimento por detrás da investigação.

Nesta sessão de 21 de julho, Elena Lombardo (FLUL/CLUL-Filologia), Joana Gomes (FLUP/IF) e Filipe Alves Moreira (UAb/IELT-UNL Polo UAb) voltam a reunir-se na Biblioteca da Ajuda para falar dos seguintes manuscritos: o ms. av. 54-IX-32 (73) — uma cópia do Livro de Linhagens do Deão; o códice 47-XIII-11 (Livro Velho de Linhagens); e o códice 51-II-20, que preserva um testemunho do Novo Memorial do Estado Apostólico de Paulo de Portalegre (séc. XV), bem como, uma narrativa de teor sebastianista.

24 de Junho: Dia de S. João Baptista e do Onomástico de D. João VI

Na corte portuguesa do século XVIII, os onomásticos (dias dos santos correspondentes ao nome da pessoa) eram ocasiões de grande significado, frequentemente celebrados com tanto ou mais destaque do que os aniversários. O dia de São João Batista, a 24 de junho, assumia especial importância para o Infante D. João, futuro João VI.

Assim, o dia de São João era uma ocasião de homenagem ao infante, que viria a marcar um dos períodos mais decisivos da história luso-brasileira.

A Biblioteca da Ajuda conserva na col. de manuscritos avulsos, entre muitos outros, dois manuscritos, autógrafos, de D. Maria Luísa Parma e do Rei D. Carlos IV, de Espanha, dirigidas à Rainha D. Maria I, a assinalarem  a ocasião:


1786 Jun. 20, Aranjuez

Carta de [D. Maria] Luísa [de Parma] para sua prima [D. Maria I] felicitando-a pelo feliz parto de D. Mariana [Vitória, do filho D. Pedro Carlos] e pelo próximo dia de S. João, onomástico do Infante [D. João].

Ms. Av. 54-V-20, nº 7g





















1791 Jun. 24, Aranjuez

Carta de D. Carlos IV, Rei de Espanha, para sua prima [D. Maria I] enviando felicitações pelas solenidades dos Santos patronos do Príncipe do Brasil [D. João] e do neto [Infante D. Pedro Carlos].

MS. AV. 54-V-21, nº 4g




Aviso: Leitura encerrada

Informamos os nosso leitores que, devido à preparação e realização de um evento oficial nesta Biblioteca, o serviço de leitura estará encerrado nos dias 22 de Junho a partir das 14h00, 23 de junho todo o dia e 24 de Junho até às 13h00. 

 Agradecemos a compreensão dos nossos leitores

Aconteceu na Biblioteca da Ajuda...




Ontem a Biblioteca da Ajuda acolheu a sessão académica, orientada pelos especialistas Elena Lombardo (FLUL/CLUL-Filologia), Joana Gomes (FLUP/IF) e Filipe Alves Moreira (UAb/IELT-UNL Polo UAb), que guiaram uma audiência alargada e motivada através de três códices medievais exemplares, do acervo desta casa.




Foram assim apresentados e explorados o  Cancioneiro da Ajuda e o Livro de Linhagens do Conde D. Pedro a ele apenso; Chronica del Rey D. Joaõ II / Garcia de Resende, cópia quinhentista por Álvaro do Couto de Vasconcelos [BITAGAP - Manid 3983], 47-XIII-26; miscelânea histórica, cuja primeira parte "Jornada de Afriqua del Rej Dom Sebastiaõ" é uma fonte inédita para o estudo sebástico, 51-IX-22.

Além da descrição codicológica, de questões levantadas pela materialidade das 'crónicas', ficámos a saber que as 3 cópias da BA têm características distintivas que as destacam dos outros exemplares conhecidos. Sabia que...



1 - o L
ivro de Linhagens do Conde D. Pedro [ou Livro Velho de Linhagens], apenso ao Cancioneiro da Ajuda, contém um texto (mal) raspado que narra um episódio inédito da vida de D. Afonso Henriques, o qual está ausente das outras cópias?




2 - a crónica de D. João II foi finalizada 2 vezes, tendo sido acrescentadas várias 'historietas' da tradição oral não constantes das outras cópias conhecidas? 

  

  




3 - a leitura / estudo da Jornada de África de D. Sebastião mostrou já a inclusão de múltiplas referências sócio-etnográficas e económicas de uma testemunha "de visu" - por enquanto, anónima - que trazem nova luz a questões levantadas pela documentação deste período em várias áreas científicas, relativamente a este episódio marcante da história portuguesa.


A Biblioteca da Ajuda concretizou, assim, um dos seus desígnios patrimoniais  fundamentais de articulação concreta e prática com o universo académico, acolhendo  um público interessado nas fontes primárias que alimentam a nossa memória colectiva, em contacto com especialistas nas diferentes áreas dos manuscritos medievais.

A Biblioteca da Ajuda foi ontem mais uma vez um espaço de memória viva!

   







“Um saber de experiência feito… uma língua para o saber”

Comemora-se hoje, desde novembro de 2019, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, um reconhecimento da abrangência geográfica do português e da sua primazia histórica na globalização, tornando-a numa das “línguas da comunicação global”.

 A Biblioteca da Ajuda, guarda na sua coleção vários exemplares que testemunham esta ligação histórica das viagens portuguesas ao desenvolvimento do conhecimento científico e à escolha do português como seu instrumento de expressão e sistematização. De entre várias possíveis, o Colóquio dos simples e das drogas e das cousas medicinaes da India (…), por Garcia da Orta, impresso em Goa, por Ioannes do Endem em 1563, destaca-se pela sua anterioridade e características próprias, desde logo o seu local de impressão.

Estruturado em 58 diálogos entre Ruano e Dr. Orta, descreve com grande exatidão plantas, ervas e frutos da Ásia, principalmente da Índia, insistindo na premissa, que fundamenta o método experimental, da observação direta sobre o conhecimento da autoridade e na recolha tradicional, junto de boticários e médicos indianos, das suas propriedades terapêuticas e formas de aplicação. À época da publicação, Garcia da Orta estava já estabelecido na metrópole indiana há mais de 30 anos e era um elemento importante da comunidade administrativa portuguesa e local. 





A primeira parte da sua vida na Índia, acompanhando Martim Afonso de Sousa (c. 1500 – 1571), é passadas nas expedições militares para onde este é enviado e que aproveita para registar observações. Médico dos vice-reis e amigo dos príncipes locais, deverá ter ensinado no Real Hospital de Goa, instituição que é exemplar do progresso médico e do seu ensino. Os Colóquios remetem para esta experiência de vida, referindo notas etnográficas dos locais onde as plantas foram observadas e apontamentos literários de carácter auto-biográfico.

A publicação da obra em Goa, na tipografia ali existente no Colégio de S. Paulo dos jesuítas, que era inicialmente destinada à Etiópia, e em português poderia ter levado a obra para o caminho do esquecimento científico renascentista, onde proliferam outros textos nesta linha, embora de publicação posterior. É o caso de Cristovão da Costa (1525-1596), auto-denominado o Africano, que em 1572 publica uma obra muito próxima da de Garcia da Orta, em Burgos, ou de Nicolás Monardes que faz o mesmo, em 1569, para o mundo natural das Índias Ocidentais, ou Américas.

   Exemplar BND [aqui]   

Canela

Tamarindo
                                                            


                                                                   


O destino da 1ª edição dos Colóquios é determinado pelo acaso de um naturalista, Charles l’Ecluse (1526-1609), empreendendo “viagens de instrução” por vários países da Europa e, devido a estas, ter-se decidido a empreender expedições naturalistas que o trouxeram à Península Ibérica, onde se manteve durante algum tempo a ‘herborizar’, tendo contactado com a obra de Garcia da Orta em Lisboa, em 1564 ou 1565, resolveu traduzi-la para latim e publicá-la. Este empreendimento não correspondia a uma tradução direta da obra de Orta, mas sim a um resumo, um ‘Epítome’ desta, de onde desapareceram as marcas de coloquialidade e as digressões literárias. Também a sistematização a que sujeitou as observações e conclusões e a adição de imagens contribuíram para um acolhimento muito maior do texto por um público atento e curioso A 1ª edição é de 1569, tendo tido 5 edições nos anos seguintes:

Aromatum et simplicium aliquot medicamentorum apud Indos nascentium historia: Primum quidem Lusitanica língua per Dialogos conscripta, D. Garcia ab Horto, Proregis Indiae Medico, auctore Nunc vero Latino sermone in Epitomen contracta, & iconibus ad uiuum expressis, locupletioribusque, annotatiunculis illustrata a Carolo Clusio Atrebate.

A BA guarda na coleção de Cimélios a edição de 1579 (3ª edição) que reúne num volume portátil os 3 grandes nomes da investigação naturalista tropical, com as suas ligações à farmacopeia e terapêutica, em texto latino: Garcia de Orta (1. resumo dos Colóquios e 2. Anotações de l’Écluse aos mesmos) Cristovão da Costa e Nicolòs Monardes.

A obra de divulgação de Carolus Clusius, como era conhecido, com a publicação em latim de 3 textos ibéricos e, principalmente, o português de Goa, trouxe ao diálogo europeu uma concretização do novo método das ciências experimentais e que terá a sua sistematização no Novum Organon, de Francis Bacon e nas experiências físicas de Galileu sobre o movimento. O contributo da obra de Orta para o progresso da Ciência e a sua revolução no séc. XVII é inegável. A sua prática de vida e registo, uma enorme erudição e o pressuposto da procura da verdade na Natureza sobre a autoridade são marcas da modernidade que o renascimento imprimiu à criação de uma ciência que terá um novo paradigma nos 2 séculos seguintes. 

(...). Garcia da Horta estava de posse d'um methodo scientifico rigoroso e arvorava a observação em criterio infallivel nas sciencias naturaes. (…) emancipa-se do respeito pela auctoridade e a sua divisa é esta: eu vi. Tambem o meio em que vivia dava-lhe uma certa liberdade de pensar e de exprimir o seu pensamento. Em Hespanha – é elle que o diz – certamente não se atreveria a afirmar coisa alguma contra os /p. 281/ gregos e nomeadamente contra Galeno, (…). Não me ponhaes medo com eles, eu vi. [Nota: Coloquio IX, do benjuy, I, p. 105] – LEMOS, Maximiano, Historia da Medicina em Portugal. Doutinas e instituições. 2 vols. – Lisboa: Manoel Gomes, editor, MDCCCXCIX [1899] . Vol. I pp. 280-281 – BA 39-XI-72

   

Edição magna da obra de l'Écluse, publicada em 1605 em Antuérpia, com os textos por ele traduzidos.

E o primeiro destes livros da ciência natural impresso está escrito em português, publicado numa colónia longínqua do que era “o Orbe lusitano” na segunda metade de quinhentos, por um homem que encarnou a erudição e a vida aventurosa como premissas para a análise do mundo natural à sua volta, exemplar dos nossos navegadores, colonos e cronistas da Índia e do seu contributo para as novas fronteiras da ciência europeia que então se iniciava.

Para saber mais: 

Biografia (exemplar da BA 116-III-46)

Avaliação e contexto científico de época

Edição anotada e dirigida pelo conde de Ficalho: 

Colóquiosdos Simples e Drogas da Índia por Garcia da OrtaEdição publicada por deliberação da Academia Real das Sciencias de Lisboa. Conde de Ficalho, dir. e anot. Lisboa: Imprensa Nacional, 1981

BA 39-XI-70 

FG@BA

D. Isabel de Portugal (1503-1539): comemorações dos 500 anos do seu casamento com o Imperador Carlos V

Col. Museu Nacional de Arte Antiga

Filha de D. Manuel I e de D. Maria de Castela, filha dos Reis Católicos, D. Isabel nasceu a 24 de outubro de 1503, no Paço da Alcáçova, no Castelo de São Jorge. Considerada na época uma das mulheres mais belas e cultas da Europa, estava destinada, através do casamento com o primo Carlos V, a desempenhar um papel político de grande relevo, contribuindo para uma convivência harmoniosa entre Portugal e Espanha.

Casou por procuração em Almeirim, a 1 de novembro de 1525, e presencialmente em Sevilha, a 11 de março de 1526. Apesar de se tratar de um casamento arranjado, a união com Carlos V revelou‑se feliz e politicamente sólida. D. Isabel foi Rainha consorte de Espanha e Imperatriz consorte do Sacro Império Romano‑Germânico. Durante as frequentes ausências do marido, exerceu funções de regente da Monarquia Hispânica, nomeadamente entre 1529 e 1533, período em que revelou grande capacidade de governação.

Teve sete filhos, dos quais sobreviveram três: Filipe, futuro Filipe II de Espanha e I de Portugal; Maria de Áustria, imperatriz pelo casamento com Maximiliano II; e Joana de Áustria, mãe do rei D. Sebastião, fruto do seu casamento com D. João de Portugal, filho de D. João III.

A morte da imperatriz, que marcou profundamente Carlos V, ocorreu em Toledo, em 1539, na sequência de um parto mal‑sucedido. O seu corpo foi trasladado num cortejo fúnebre até à Capela Real de Granada, organizado e conduzido por Francisco de Borja y Aragón, IV Duque de Gandia e camareiro‑mor da imperatriz. À chegada, de acordo com o protocolo régio, o caixão foi aberto para reconhecimento do corpo. O estado avançado de decomposição, resultante dos vários dias de viagem, causou um forte impacto em Francisco de Borja, a quem a tradição atribui a frase: «Nunca volveré a servir a señor que se me pueda morir»Este episódio, decisivo na sua vida, levou-o a abandonar a corte e a ingressar, em 1546, após enviuvar, na Companhia de Jesus. Foi beatificado em 1624 por Urbano VIII e canonizado durante o pontificado de Clemente X.

A Biblioteca da Ajuda conserva, entre outros documentos de grande relevância histórica, a coleção Rerum Lusitanicarum, composta por 224 códices copiados em Roma, em 1744, por iniciativa do Comendador Manuel Pereira Sampaio, ministro de D. João V junto da Santa Sé. Esta vasta compilação reúne cópias de documentos relativos à história de Portugal e às suas relações com a Cúria Romana, provenientes da Biblioteca Vaticana e de outros arquivos romanos.

Entre os volumes VIII e LIX encontra‑se a subcoleção Symmicta Lusitanica, dedicada sobretudo à diplomacia portuguesa e à história dos seus monarcas. É neste conjunto que se preserva, no códice 46‑XI‑12 (vol. LVIII, tomo 51.º), a transcrição da bula de dispensa de parentesco, primos, concedida pelo Papa Clemente VII, documento indispensável para a celebração do casamento entre Carlos V e D. Isabel de Portugal. O original da bula encontra‑se registada no Archivio Apostolico Vaticano, no pontificado de Clemente VII (1523‑1534), ano de 1525, sendo o documento acessível no Arquivo Geral de Simancas [ver aqui]

Mais documentos da Biblioteca da Ajuda relativos a D. Isabel de Portugal [aqui]


Manuscritos fora da estante: Encontros com património | 11 de Maio 2026 | 15h00 | Biblioteca da Ajuda |

O ciclo de encontros “Manuscritos fora da estante – Encontros com Património” propõe uma aproximação académica a manuscritos notáveis, convidando o público a observá-los de perto explorando as suas histórias, materialidades e significados num diálogo aberto entre passado e presente.
A sessão inaugural, na Biblioteca da Ajuda, será orientada por especialistas como Elena Lombardo (FLUL/CLUL-Filologia), Joana Gomes (FLUP/IF) e Filipe Alves Moreira (UAb/IELT-UNL Polo UAb), que guiarão o público numa viagem de exploração dos seguintes manuscritos: o Cancioneiro da Ajuda e Livro de Linhagens do Conde D. Pedro; o códice 47-XIII-26 — o único manuscrito conhecido da Vida e Feitos delrey Dom João Segundo, de Garcia de Resende, anterior à edição de 1545; e o códice 51-IX-22 — que contém uma fonte inédita sobre a batalha de Alcácer-Quibir (1578).

Horário: 15h

Inscrições: O acesso é gratuito, limitado a 20 lugares. Para inscrições, preencha este formulário ou escreva um e-mail para manuscritos.fora.da.estante@gmail.com.



Dia Mundial da Poesia: Entre a Poesia e a Filosofia: Alexander Pope, Martha Blount e a Cultura Literária na Inglaterra do Século XVIII

Por ocasião do Dia Mundial da Poesia, celebrado a 21 de março de 2026, relembramos a criação poética enquanto forma de expressão artística cujo impacto transcende a esfera literária, influenciando de modo significativo a cultura e a sociedade. Neste contexto, no âmbito da tradição literária inglesa, evocamos Alexander Pope (1688–1744), cuja obra, marcada pelo rigor formal e pela crítica sagaz, constitui um dos mais notáveis exemplos do neoclassicismo inglês no século XVIII.

Col Icon. BA 827
Nascido em Londres a 21 de maio de 1688, Alexander Pope enfrentou desde a infância problemas de saúde que lhe deixaram sequelas físicas permanentes. Descendente de uma família católica num período de discriminação religiosa, viu-se impedido, devido à legislação anticatólica existente da época, de frequentar universidades como Oxford ou Cambridge, dedicando-se de forma autodidata ao estudo dos clássicos, particularmente de Homero, Virgílio e Horácio. Esta formação refletiu-se nas suas obras, caracterizadas pela mestria na sátira, pela precisão formal e pelo uso do verso heroico.

Autor do poema filosófico An Essay on Man, publicado em quatro epístolas (1733–1734), o poeta reflete sobre a condição humana, o papel do homem no universo e a relação de equilíbrio entre ordem e caos. É nessa mesma obra que surge a sua expressão “Hope springs eternal in the human breast” (An Essay on Man, epístola I, p. 56, linha 95),  que exprime a ideia de que a esperança é eterna no coração humano, numa observação sobre a constância da esperança como traço da natureza humana.

Ensaio sobre o homemepístola I, p. 56, linha 95

Apesar de uma relação tensa com o meio literário da época, Alexander Pope notabilizou-se ainda pela tradução da Ilíada de Homero e pela versão inglesa da Odisseia, realizada sob a sua direção com a colaboração de outros autores. 

Enquanto poeta, algumas das suas mais belas poesias são dedicadas a Martha Blount (1690-1762), figura ativa nos círculos literários da época, sua confidente, por quem desenvolve uma forte ligação.

Col Icon. BA 817
A natureza deste vínculo tem sido objeto de debate na historiografia literária, sendo geralmente caracterizada como uma relação de grande proximidade afetiva, sem consenso quanto à sua eventual dimensão amorosa. Ainda assim, Martha Blount foi uma das presenças mais constantes na vida do poeta. Demonstração do apreço que lhe dedicava foi o facto de lhe ter legado uma parte significativa dos seus bens, incluindo uma quantia monetária substancial e o usufruto de rendimentos provenientes da sua propriedade após a sua morte, em 1744.





A Biblioteca da Ajuda, para além dos retratos de Alexander Pope (registo BA 827) e de Martha Blount (registo BA 817), testemunhos iconográficos destas figuras da literatura e cultura do século XVIII, conserva no seu acervo a tradução para português da obra An Essay on Man, por Francisco Bento Maria Targini (1756-1827), Visconde de São Lourenço, tradutor e literato, que inclui uma dedicatória ao Rei D. João VI: 

Ensaio sobre o homem de Alexandre Pope / traduzido verso por verso por Francisco Bento Maria Targini, Baraõ de Saõ Lourenço... - Londres: na Officina Typographica de C. Whittingham, College House, Chiswick, 1819.

3 vols. - Dedicatória a D. João VI, com as armas reais.  No anterrosto gravura representando Francisco Maria Targini assin. «H.J. da Silva inv. et del.» ; «G. F. Queiroz sculp. em 1815». Gravura entre p. 31 e 32 representando Alexandre Pope assin.: «Jervas pinxit» ; «J. H. Robinson sculp.»

BA 62-VI-23 a 25



Gravuras de Francisco Maria Targini e Alexandre Pope

     

Relembrar a vida e obra do poeta Alexander Pope é, simultaneamente, compreender aspetos da cultura literária inglesa desta época, mas também de como as redes de relações humanas se entrelaçam na construção do património cultural.

Desafiamos os leitores a (re)descobrir a sua obra, refletindo sobre a intemporalidade dos seus textos e a sua relevância no contexto contemporâneo

TM&BA

Natal: Uma Alegoria à Maternidade

Oficio de la Virgen Maria                

                              

               

           Oficio de la Virgen Maria.... - Madrid: en la imprenta da Compañia, 1797. BA. 53-VI-1

A Biblioteca da Ajuda, herdeira da Real Biblioteca Particular, possui, no seu muito rico e diversificado acervo, um conjunto de obras com superlibros, marcas relevantes de anteriores proprietários, ou de ligação a encomendadores, ou patrocinadores das edições e que sinalizam as aquisições, doações, ou incorporações que ocorreram ao longo da sua história.

O exemplo que hoje apresentamos - Oficio de la Virgen Maria, livro de Horas, impresso em Madrid, em 1797, concentra toda a riqueza formal na encadernação cuidada, a marroquim vermelho gravado a seco e com ferros a ouro, enquadrando superlibros, com as iniciais "R" e "C" encimadas por coroa fechada, gravadas a ouro, uma na pasta anterior e outra na posterior, simbólica heráldica que nos remete para Carlos IV (1748-1819), rei de Espanha. Nada sabemos quanto à forma como a obra foi incorporada nas colecções da Biblioteca Real. No entanto, dadas as relações familiares próximas entre as duas casas reinantes, a de Espanha e a de Portugal, é provável que se tenha tratado de uma oferta do monarca espanhol a seus parentes da corte régia portuguesa. Quer a D. Maria I (1734-1816), sua prima direita, ou a sua filha D. Carlota Joaquina (1775-1830), à data da impressão do livro, Princesa do Brasil. 

Pastas, anterior e posterior, com as iniciais "R" e "C" encimadas por coroa fechada dentro de molduras com motivos vegetalistas, enquadradas por cercaduras com elementos florais, cantos, contra cantos e cortes dourados, num tipo de estilização  comum nas encadernações espanholas:

No Oficio, a entrada de cada episódio da Vida de Maria e de seu filho Jesus, é ilustrada com gravuras de autoria diversa, entre outros de Mariano Salvador Maella (1739 - Madrid 1819), pintor de Câmara do Rei Carlos IV, gravadas por Manuel Salvador Carmona, e ainda de autores, de menor relevo. De entre as imagens criteriosamente colocadas, introduzindo cada oração, destacamos a alusiva à Natividade que reflete a aprendizagem de Maella no ambiente artístico romano, prévia à sua nomeação como pintor da corte régia de Espanha.

A imagem de Jesus Menino, nas palhinhas, debaixo do olhar enlevado de sua Mãe, e da presença protectora de S. José, rodeado de pastores, e de animais domésticos, encimada por anjos celestiais que iluminam a cena, de invenção de Maella, replica a tradição milenar, de colocar Jesus entre os mais humildes, iconografia que prossegue com várias declinações ao longo dos séculos e que Maella reproduz a partir dos autores do barroco italiano, nas obras dos quais o artista se deixara influenciar. Imagens que são o reflexo do seu périplo de aprendizagem romano e da sua presença activa junto de Anton Raphael Mengs (1728-1779), pintor-académico que Carlos III (1716-1788) chamara para a Corte de Madrid, aí divulgando o gosto pela estética classicista romana.

Este livro do acervo da BA, para além de testemunho dos laços familiares, artísticos e estéticos que uniam as duas monarquias ibéricas e que se reflecte nas obras de arte que possuíam e nas que ofereciam com o objectivo de reforçar alianças políticas e afectivas, algumas das quais enriquecem as colecções patrimoniais nacionais, é ainda a expressão da matriz ideológica e imagética partilhada pelo Sul Católico. 

MMB@BA

AVISO: tolerância de ponto

Informamos os nossos Leitores que na sequência da tolerância de ponto concedida pelo Governo (Despacho n.º 15085-A/2025) e pela decisão do Conselho de Administração da Museus e Monumentos de Portugal (MMP), a Biblioteca da Ajuda estará encerrada nos próximos dias 24, 26 e 31 de dezembro de 2025 e 2 de janeiro de 2026.

1794: o incêndio da Real Barraca, "desvelos" e "providencias" dos bibliotecários da Livraria Régia

A Gazeta de Lisboa, no seu número 45, suplemento XLV, datada de 14 de Novembro de 1794, dava notícia do incêndio que ocorrera no Real Palácio da Ajuda, no dia 10 daquele mesmo mês. Lavrara o mesmo “com tal rapidez” que “a pezar [sic] das maiores diligencias” não fora possível “impedir que ardesse toda a parte do Palacio que fica ao Nascente”, esclarecendo o redactor, ter resultado “daqui huma perda muito consideravel, sem embargo de se terem salvado muitos dos móveis”[1].

GALLI BIBIENA, Giovanni Carlo, 1717-1760. [Planta da Real Barraca] [entre 1755 e ca 1760?], desenho: tinta da china e aguadas. Dimensões 131x72,5 cm. [aqui]

À sucinta notícia sucedia, no número seguinte, datado do dia 15, uma informação mais detalhada, e na qual se destacava que do estrago inevitável que se fizera no Paço velho, escapara “com admiração geral, toda a Real Livraria”, “sucesso feliz” que se ficara a dever ao “desvelo e acertadas providências do R. Doutor Feliciano Marques Perdigão”, seu dedicado bibliotecário.

Escrevia Francisco da Cunha Leão que “Poucas bibliotecas sofreram destruição e história tão turbulenta como a Biblioteca da Ajuda”[2]. Se as perdas com o terramoto de 1755 tinham sido incomensuráveis, entre outras, para a colecção régia de livros, o incêndio de 1794 poupara-a. No entanto, a chegada das tropas napoleónicas em 1807 e o embarque da Família Real para o Brasil, determina um novo capítulo na sua atribulada história. Encaixotada com as preciosidades régias partiria rumo ao Novo Mundo, constituindo doravante o núcleo fundador da Biblioteca do Rio de Janeiro.

Relação dos caixotes com livros pertencentes às Reais Bibliotecas embarcados para a corte do Rio de Janeiro em 25/02/1809[3].

As plantas que a BN guarda daquele que era o Paço Velho da Ajuda mostra-nos, com nitidez os espaços que a Real Livraria (n.º 23) ocupava naquele complexo habitacional. Salvara-se do incêndio porque, contrariamente ao restante edificado, construído em tabique de madeira, fora, sabiamente, erguido em alvenaria de pedra e cal, tal como o espaço anexo, do “Tizouro”, de onde, eventualmente, se salvariam alguns moveis[4].

 

O incêndio de Novembro de 1794 apagou grande parte do importante testemunho da vivência da corte do rei D. José I e da rainha D. Maria I. Contudo, apesar da sua “aparência mesquinha e inusitada para uma residência regia”, a “Real Barraca” encerrava um significativo espolio de artes decorativas”[5], às quais devemos juntar as preciosidades biblioteconómicas guardadas na sua Livraria, que na planta surge assinalada com o nº 23.

De todos estes incidentes se reergueria, no regresso da Família Real ao continente europeu, uma “nova” Biblioteca, mediante compras, incorporações de fundos monásticos, doações de mestres régios e bibliófilos, rainhas e princesas, políticos banidos e exilados[6]. 

 






Cancioneiro da Ajuda, proveniente do Colégio dos Nobres, cuja livraria foi, em grande parte, incorporado na Real Biblioteca da Ajuda, após a extinção daquela instituição de ensino[7].



De entre as aquisições efectuadas com o objectivo de suprir as perdas causadas pelo terramoto de 1755, na Real livraria, destaca-se a da livraria do Conde de Redondo, pela raridade de alguns dos espécimenes que integrava. Destacamos alguns dos manuscritos daquela colecção, e que tendo rumado para o Brasil, regressariam a Ajuda, após 1821, com o conjunto dos manuscritos da livraria régia.



 







Foral da Vila do Touro, anteriormente pertencente à Livraria do Conde de Redondo. BA 52-XIII-27


Apesar de todas as vicissitudes pelas quais passou a Livraria régia foi sistematicamente reerguida e as suas perdas colmatadas. Como deixou escrito um dos seus últimos directores, a história da Biblioteca da Ajuda “(…) longa de pequenas e grandes tragédias, de trabalho insano, surdo e dedicado de gerações de bibliotecários, arquivistas e historiadores, de dezenas de milhares de livros perdidos, recuperados e emigrados (…)”[8] detém, na actualidade, um acervo de importância histórica e patrimonial de valor incalculável.

 MMB@BA


[1] BA 170-I-172/69. Disponível em: https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/GazetadeLisboa/1749/Novembro/Novembro_item1/index.html

[2] Cunha Leão, Francisco, “A Biblioteca da Ajuda: das origens à actualidade”, Cadernos BAD, Lisboa, 1992, p. 196.

[3] Registo do Expediente do Particular, ANTT CR 2979, fl. 36v.

[4] Bastos, Celina, A Real Barraca no sitio de Nossa Senhora da Ajudo e as encomendas da Casa Real: alguns elementos para o seu estudo”, Revista de Artes Decorativas, Universidade Católica, 2007, pp.193-228. Disponível: em https://revistas.ucp.pt/index.php/revistaartesdecorativas/issue/view/977.

[6] Barros, Mafalda de Magalhães, “Banidos os proprietários das livrarias mas não os livros”, linha Editorial Estudos, Palácio Nacional da Ajuda, 2024. Disponível em: https://www.palacioajuda.gov.pt/paginas/69c4ddee-banidos-os-proprietarios-das-livrarias-mas-nao-os-livros

[7] Idem, Idem.

[8] Cunha Leão, Francisco, obra cit., 1992, p.