Em 2020 as Jornadas
Europeias do Património são subordinadas ao lema Património – Educação, binómio
que encontra na Biblioteca da Ajuda a sua expressão material, já que enquanto
repositório de documentação impressa, manuscrita e iconográfica, secular, é um
instrumento indispensável à investigação científica, ao conhecimento e, de um
modo mais lato, à instrução, agora não apenas acessível ao círculo restrito de cortesãos
que a frequentavam, mas de um público lato de investigadores nacionais e
estrangeiros, interessados na Cultura portuguesa e na sua relação com o mundo.
Na Biblioteca da
Ajuda, no seu vasto e valioso espólio, não faltam testemunhos de como as
Bibliotecas/Livrarias foram, e são, importantes instrumentos para a
aprendizagem, a formação intelectual e, em consequência, para a educação. Como afirmava
Frei José Mariano da Conceição Velloso (1742-1811), director da Oficina
Typographica (…) Litteraria do Arco do Cego, “sem livros não há instrução”[1].
Enquanto Biblioteca
Real, símbolo da “Ilustração”, que nenhum príncipe “iluminado” dispensava, era
central na afirmação do prestígio régio. Guardiã de obras únicas, raras, ou
preciosas, até à implantação da República, foi ainda repositório de documentação
de caracter administrativo, relativa à administração do Reino, a que os
monarcas recorriam para a fundamentação de decisões políticas e diplomáticas. E
ainda arquivo de correspondência privada entre membros da família real
portuguesa e as famílias reais reinantes na Europa. Conserva ainda testemunhos documentais
do papel mecenático da coroa, tanto os relativos às aquisições de obras de arte
por parte de D. João V (1689-1750) em Roma, e não só, como, no domínio da música,
as
composições elaboradas ao longo de séculos, para o cerimonial régio, por
compositores de várias nacionalidades.
Arquivo patrimonial, de uma riqueza e diversidade únicas, no que respeita a determinadas áreas do conhecimento histórico, guarda ainda um conjunto de obras de caracter pedagógico, que relacionamos com a instrução dos príncipes. De entre estas, algumas exibem marcas de posse de mestres pedagogos que desempenharam a exigente missão da instrução dos príncipes como é exemplo José Monteiro da Rocha (1734-1819), que legou a sua Livraria a D. Pedro IV (1798-1834), do qual foi tutor.
[1] Faria, Miguel Figueira de, “Da Facilitação e da
Ornamentação: a Imagem nas Edições do Arco do Cego”. In Diogo Ramada CURTO;
Fernanda CAMPOS (orgs.) - A Casa
Literária do Arco do Cego (1799-1801), bicentenário: Sem Livros não há
Instrução, Catálogo da Exposição. Lisboa: Biblioteca Nacional de Lisboa;
INCM, 2000, pp. 107-137 https://repositorio.ual.pt/handle/11144/2480 .
I. Livros com marcas de posse de pedagogos que legaram as suas livrarias à Biblioteca Real:
Livros com Ex-libris de José Monteiro da Rocha, que foi Mestre do Imperador D. Pedro I, ainda em Portugal. No Brasil, tornou-se Mestre da Princesa da Beira D. Maria Teresa, e das Infantas D. Maria Isabel, D. Maria Francisca e D. Isabel Maria, irmãs do Imperador.
Diversos manuais, de claro propósito pedagógico, de entre os quais os dedicados à caligrafia e ao desenho, apresentam o exlibris de Manuel Joaquim de Sá Braga, “professor das primeiras Letras” no Colégio dos Nobres[1], cuja livraria foi integrada na Biblioteca Real, por oferta do autor a “Sua Magestade Fidelíssima O Senhor Dom Miguel Primeiro”, conforme se pode ler no Catálogo manuscrito dos livros que o mesmo entregou na “Real Bibliotheca de Sua Mag.de .”, no dia 8 de Julho de 1830[2].
Ex-libris de Manuel Joaquim de Sá Braga
[1] Sequeira, Gustavo de Matos, Depois do
Terramoto, subsídios para a História dos Bairros Ocidentais de Lisboa,
Vol. II, Lisboa 1917, pp. 103 e 530-531.
[2] BA 54-XI-28 (87)
II. Obras de caracter pedagógico-formativo com dedicatórias impressas por
parte de pedagogos:
Alguns compêndios, para a instrução primária, apresentam dedicatórias impressas dos seus autores aos príncipes, de que é exemplo o conjunto Thesouro de Meninos, Resumo de Historia Natural, para uso da Mocidade de ambos os Sexos e instrução das pessoas (…) Obra elementar compilada e ordenada por Pedro Blanchard; traduzida do francês com muitas correcções e artigos novos, oferecida a Sua Alteza o Príncipe Real do Reino Unido de Portugal e do Brasil (…) o Senhor D. Pedro de Alcantara por Matheus José da Costa.
Obra adoptada como compêndio, na maior
parte dos colégios e aulas de instrução primária, continha noções das ciências
físicas e da história natural, era uma tradução, cuja “nomenclatura portuguesa
adoptada” fora “disposta pelo insigne Brotero”[1]. Obra
de divulgação que traduzia o ascendente de uma nova ordem de saberes, de entre
os quais se destacava a História Natural, nova disciplina criada no âmbito da
“reforma setecentista do ensino português”, cuja importância é “enfatizada pela
maioria dos autores portugueses que se dedicaram à reflexão da questão
pedagógica”[2].
O facto de a edição ser dedicada aos Príncipes, traduz a dependência que ainda se verificava dos autores em relação ao patronato régio, ou da corte, que com aquela tutela contribuíam para credibilizar os empreendimentos editoriais, junto de um público mais lato
Thesouro de Meninos, Resumo de Historia Natural, para uso da Mocidade de ambos os Sexos e instrução das pessoas (…) Obra elementar compilada e ordenada por Pedro Blanchard; traduzida do francês com muitas correcções e artigos novos, oferecida a Sua Alteza o Príncipe Real do Reino Unido de Portugal e do Brasil (…) o Senhor D. Pedro de Alcantara por Matheus José da Costa (…).Tomo V Zoologia. Continuação das Aves, e Peixes, Lisboa 1819. Com encadernações pele vermelha, Armas Reais, ferros a ouro.
III. Livros de caracter pedagógico com marcas de posse manuscritas de
membros da família real
Diz Roger Chartier
que a leitura, sempre relacionada com o efémero, raramente deixa vestígios, contrariamente
à escrita que é “fixa, conservadora, duradora”[1]
levantando, em consequência, a pertinente questão sobre a legitimidade de se estabelecer,
uma a relação entre a posse de livros, e a sua leitura. Ou como escreve
Fernanda Campos sobre as “delicadas relações entre o livro e o leitor”, da qual
decorre que “ter livros não significa necessariamente lê-los e ler livros não
significa necessariamente tê-los”[2].
Daí a importância, para a Ciência Biblioteconómica, das anotações marginais e
outras.
Nesta procura
permanente dos documentos que nos ajudem a esclarecer a História da Biblioteca
da Ajuda, diversos tipos de marcas, permitem-nos estabelecer um elo entre o
livro e aquele que o possuiu, ou manuseou. No primeiro caso, encontramos os superlibros e ex-libris, enquanto marcas de posse, de quantos os possuíram. De
outro, anotações manuscritas que nos revelam o manuseamento de livros e por
extensão, consideramos, a sua leitura.
[1] Chartier, Roger, A Ordem dos Livros,
Vega, Lisboa, 1997, pp.11-12.
[2] Campos, Fernanda maria Guedes de Campos, Para se achar facilmente o que se busca. Bibliotecas, catálogos e
leitores no ambiente religioso (séc. XVIII), Caleidoscópio, 2015, pág. 27.