Ramalho Ortigão (Porto, 1836 - Lisboa, 1915); Director da Biblioteca da Ajuda (1895 -1911)



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[f.10r.] Havia trez catalogos. Um da livraria das Necessidades em 3 grossos volumes in folio, encadernados, mais um volume de suplemento. Outro catalogo do fundo propriamente da Ajuda, muito incompleto, em pequenos verbetes dispostos por ordem alphabetica sobre uma mesa. O terceiro catalogo, dos manuscritos, extremamente sucinto em volumes in folio da letra de Santos Marrocos official da Bibliotheca no tempo da regencia do principe D. João, tendo acompanhado a livraria para o Rio de Janeiro e sendo ali o guarda dos manuscritos. Todos estes catalogos referidos à cota que tinham os livros na Bibliotheca velha e na livraria das Necessidades, // [f.10v.] eram absolutamente inuteis para abusca de qualquer obra. O mesmo sucedia com os bilhetes remissivos e com os sumarios. Devo dizer que a memoria e o tino bibliothecnomico do official Rodrigo Vicente de Almeida supriam maravilhosamente estas capitaes e profundas deficiencias bibliograficas. Almeida, que contava cerca de oitenta annos de edade, e desde a sua infancia servira na Bibliotheca com inexcedivel zelo e exemplarissima fidelidade, primeiro como moço, depois como guarda e enfim como official, // [f.11r.] ocorria a tudo, e sob a simples indicação do titulo da obra ou do nome do auctor descobria em poucos minutos qualquer livro que se requisitasse. Como todo antigo funcionario experiente, encanecido no serviço, deligente, tradicionalista e tenaz, Almeida era refractario a toda a reforma e a toda a inovação nos serviços da livraria a que, pelo profundo conhecimento que d'ella tinha, bem podia considerar sua. O receio de o desgostar - e era melindrosissima a sua sensibilidade - foi um dos maiores obstaculos // [f.11v.] com que tive de lutar para tornar regular e nitidamente accessivel ao estudo a Bibliotheca Real. Desfaser a ordem imperfeita em que se achavam os livros e estabelecer uma catalogação inteiramente nova seria uma revolução excessivamente radical e perigosa. Limitei-me pois, empregando apenas o resumido e modesto pessoal de que dispunha, a tomar as seguintes medidas:
1º Numerei todas as estantes assim como todas as parteleiras de cada estante em todas as salas da casa.
2º Mandei construir archibancos, egual//mente [f.12r.] numerados, nos quaes em uma das salas estabeleci a Bibliotheca que denominei de El Rei D. Carlos, herança de El Rei D. Luiz, para cuja acomodação não havia logar nas estantes que revestiam as paredes.
3º Coloquei em pastas, sob uma superficial classificação todos os manuscritos soltos e dispersos.
4º Fiz em seguida numerar com rotulos impressos familiarmente num componedor mecanico pelo continuo Leonardo Barros, todos os livros e todas as pastas da nossa coleção.
5º Adoptei, para facilidade de catalogação // [f.12v.] por dois praticantes inexperientes, verbetes especiaes, formulares, tendo impressos os dizeres que convem preencher para dar com relação a cada obra noticia methodica do nome do auctor, do titulo do livro, da historia da edição, da historia do exemplar, do formato e da colocação do volume na sua respectiva estante.
6º Fiz acrescentar a cada verba do catalogo das Necessidades e do catalogo dos manuscritos, tornando-os assim utilisaveiz, a cota a tinta encarnada dos volumes a que cada verba se refere.//
[f.13r.] A cota, prescindindo de qualquer convenção methodica ou chave sistematica, consta em toda a nova catalogação de um grupo de 3 numeros. Por exemplo: 25-XII-13. O primeiro numero é o da estante, o segundo o da parteleira, o terceiro o do volume egualmente assignalado no seu respectivo rotulo.
7º Para substituir na fila qualquer volume que por motivo justificado tenha de sair temporareamente do seu logar, adoptei um calço de madeira, tendo a forma de um // [f.13v.] livro e por uma das suas faces a configuração de uma lombada, à qual se aplica um rotulo egual ao do livro ausente. Na superficie correspondente à pasta da encadernação neste falso livro corre numa ranhura rectangular aberta na madeira um cartao em que se inscreve o destino que teve o livro substituído no seu logar por este lembrete de saída.
8º Em cada estante coloquei em parteleira ao alcance da mão uma folha de cartão contendo  a contagem exacta dos volumes que cada parteleira encerra. Esta relação é periodicamente revisada para rectificação // [f.14r.] do inventario numerico da livraria.
9º Em desenvolvimento do catalogo geral confeccionei inventarios especiaes compreendendo: 1º Rol das encadernações artisticas; Rol dos ex-libris; 3ºRol dos brasões d'armas.
10º Estabeleci as seguintes peças constitutivas do archivo particular da Bibliotheca: 1º Inventario numerico dos livros contidos em cada estante; 2º registo dos leitores e das consultas; 3º registo chronologico das obras adquiridas ou offertadas; 4º ephemerides ou registo quotidiano do serviço.
O numero dos empregados é hoje de 4. //
[f.14v.] Um bibliothecario director, nomeado em 1895; um official, nomeado em 1902; um amanuense nomeado em 1899; um continuo nomeado em 1906. O trabalho de servente é feito por um moço do thesouro.
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Ramalho Ortigão (Porto, 1836 - Lisboa, 1915); Director da Biblioteca da Ajuda (1895 -1911)

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Então se procurou pela segunda vez reconstituir a Bibliotheca Real nas suas antigas casas pombalinas da Ajuda por meio de successivas contribuições, que passo a referir: livros provenientes do Desembargo do Paço , um exemplar de cada uma das obras impressas, sob a censura d’aquelle tribunal desde 1813 até 1833; livros vindos da Bibliotheca Publica, a qual entregou  um exemplar de cada uma das obras que possuia em duplicado; livros procedentes da Typographia Regia, // [f.6v.] livros em 1826 offerecidos a El Rei por Pedro de Mello Breyner, toda a sua livraria de cerca de quatro mil volumes; livros que em 1831 vieram do Collegio dos Nobres, tendo anteriormente pertencido à companhia de Jesus, cerca de oito mil volumes entre os quaes o Codice do Cancioneiro, dminuido de algumas folhas que mais tarde se lhe anexaram vindas da Bibliotheca d'Evora; finalmente as livrarias legalmente encorporadas na da Ajuda como a da Rainha D. Carlota Joaquina e a da princesa D. Maria Benedita.//
[f.7r] Em 1831 era de 17 o numero dos empregados na Bibliotheca da Ajuda: 1 bibliothecario, 13 officiaes e 3 serventes. Em 1 d’Agosto de 1839 Alexandre Herculano é nomeado bibliothecario de El Rei D. Fernando, encarregado  da Bibliotheca da Ajuda interinamente no impedimento do Padre António Nunes. Em 1855, por ocasião da aclamação de El Rei D. Pedro V vem para a Ajuda os livros da Congregação do Oratório, que haviam ficado no Convento das Necessidades desde 1833. Estes livros, por não // [f.7v.] haver nas casas da Bibliotheca espaço em que se acomodassem, ficaram em montão nas casas do andar terreo do Paço, nas quaes mais tarde se estabeleceram os modernos aposentos da Rainha Senhora D. Maria Pia. Esses livros, pela maior parte encadernados, foram muito danificados durante o período de abandono a que me refiro e de que muito se queixou Herculano. Em 1877 é demolido o passadiço que ligava o palácio com a Bibliotheca. Neste mesmo anno fallece em Val de Lobos Alexandre Herculano em resultado de um resfriamento contraído ao vir pela derradeira vez a Lis//bôa [f.8r.] visitar o imperador do Brasil. Por sua morte é nomeado bibliothecario de El Rei D. Luiz, encarregado  desta Bibliotheca, o secretario de El Rei, Magalhães Coutinho. Em 1880 delibera El Rei D. Luiz recolher a Bibliotheca Real no interior do palacio  da Ajuda, onde residia desde a sua coroação. Para esse fim se aparelharam e guarneceram de estantes as salas em que ao presente ella se acha, realisando-se a inauguração da casa nova no dia da Celebração do Centenário de Camões a 10 de Junho do referido anno. Em 1890 entram na bibliotheca os volumes que haviam sido da Bibliotheca Particular de El Rei D. Luiz e que El Rei D. // [f.8v.] Carlos adquirira pagando aos coherdeiros do rei seu pae a quantia em que judicialmente foram avaliadas as obras que taes volumes compreendem.
De que modo se achavam coordenados e catalogados os livros a cujo conjunto me refiro, constituindo o recheio total da Bibliotheca na ocasião da minha entrada nesta casa nos primeiros dias do mes de Fevereiro de 1895 ? Responderei com a possivel precisão.
Não havia inventario geral nem // [f.9r.] registo numerico dos volumes colligidos. Fizera-se com excessiva precipitação a remoção dos livros da antiga para a nova casa. Para base de coordenação dera-se apenas um destino simplistico e sumario às differentes salas: Theologia ­ Historia ­ Jurisprudencia ­ Bellas Letras ­ Sciencias e Artes ­ Miscelaneas e livros raros ­ Musica e Manuscrito.
Depois do quê se procedera tão rapidamente quanto possivel à collocação das obras nas estantes por ordem de materias e por dimensão dos volumes segundo // [f.9v.] a altura das divisões. Pela diferença da configuração das salas e dos armários, nenhuma correlação de analogia entre a disposição dos livros na casa velha e na casa nova. Nenhuma numeração nem qualquer outro sinal coordenador nas estantes, nas parteleiras ou nos volumes Os manuscritos não encadernados, em peças soltas, achavam-se promiscuamente em rimas a um canto da casa chamada de arrecadação. Os livros do espolio de El Rei D. Luiz, assim como alguns que a rainha Senhora D. Maria Pia fizera depositar na Bibliotheca achavam-se desordenadamente no chão da mesma arrecadação.//
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Ramalho Ortigão (Porto, 1836 - Lisboa, 1915); Director da Biblioteca da Ajuda (1895 -1911)



RELATÓRIO de Ramalho Ortigão, director da Real Biblioteca da Ajuda, enviado a el-rei D. Manuel II.
18 fls. - Ms. s. papel tarjado com cercadura a negro e com timbre da ‘‘Real Bibliotheca da Ajuda’’ com as armas reais nos 9 folios (f. ímpares).

[f.1r.]   [RELATÓRIO]
 
Ajuda Março 1908
 
Meu Senhor
Na qualidade de bibliothecario de El Rei o Senhor D. Carlos que Deus tenha na gloria imperecivel, cumpro neste papel o doloroso dever de dar conta a Vossa Magestade do desempenho das minhas funções na direcção da Real Bibliotheca da Ajuda.
Para esse effeito me permitto expôr em sucinto relatorio qual o modo [como (sobreposto)] encontrei organizada a Real Bibliotheca, e qual o estado em que neste momento me cabe // [f.1v.] a honra de a entregar a Vossa Magestade.
Perante o culto espírito de Vossa Magestade, que, bem recentemente ainda visitava como príncipe esta Casa, patenteando pela sua origem, pela sua função e pelo seu destino o mais esclarecido interesse, inutil recordar aqui a gloriosa história da Bibliotheca Real e da alta influencia que ella tem exercido na evolução da mentalidade portuguesa e no fecundo prestigio litterario que teve no mundo a nossa pequena patria. //
[f.2r.] Desaparecera destruida pelo terremoto de 1755 a primitiva livraria régia, a esse tempo estabelecida na casa chamada do Forte nos Paços da Ribeira, e composta das obras de princípio  certamente colligidas pelo sabio Rei trovador D. Diniz; depois pelos reis e príncipes poetas, escritores e bibliografos D. João 1º, D. Duarte, o infante D. Pedro, o infante D. Henrique, e D. Affonso V; pela rainha D. Leonor, que tão devotamente patrocinou a introdução da tipografia em Portugal; por El Rei D. Manoel, que com tanta magnificencia enri//queceu [f.2v.] a nossa coleção de illuminuras; pelo infante D. Fernando, do qual Damião de Goes, o grande amigo d’Erasmo, de Dürer e dos mais gloriosos humanistas da Renascença, era o agente litterario e artistico na Flandres, na Alemanha, na Italia e nos paizes setentrionaes da Europa; pela rainha D. Catharina e por D. João III, cujas copiosas colleções se reuniram em Evora; por D. João IV, cuja livraria de musica foi a primeira do mundo; por D. João V finalmente, que pelo // [f.3r.] dispendioso inquerito a que mandou proceder nos Cartorios de Roma formou o importante repositorio Rerum lusitanicarum collectio generalis, que felismemente se conserva ainda entre os manuscritos de Vossa Magestade.
Logo depois do terremoto, com os primeiros trabalhos da reedificação de Lisbôa, é reconstituida a Bibliotheca Real em casas provisorias para esse fim construidas junto da egreja de que ainda existe a torre do relogio. //
[f.3v.] Para ter conhecimento das relações da contiguidade entre a Bibliotheca e o Paço da Ajuda convem conhecer nas suas linhas geraes a historia das reedificações deste palacio. Existia anteriormente ao terremoto um palacio real no alto da Ajuda, a oeste da calçada do mesmo nome e junto do Jardim Botanico. Esse edificio, de que ainda existem fragmentos, era uma habitação suplementar, especie de Casa de Campo ou de recreio da família real, ordinariamente residente no Paço da Ribeira. Depois do abalo de terra e do subsequente incendio que destruiu o Paço // [f.4r.] da Ribeira, reconhecendo-se que o Paço da Ajuda não offerecia acomodações suficientes para residencia permanente da família real, edificou-se um palácio provisorio, quase completamente de madeira, de forma abarracada, mas esmeradamente ornamentado. Pelo mesmo tempo se edificara a Bibliotheca, a que o Paço Abarracado se ligava por um passadiço. Este palácio  foi devorado por um incendio no dia 10 de Novembro de 1794, salvando-se a bibliotheca por se haver oportunamente cortado o passadiço que a punha em contacto com o palácio incendiado. Logo // [f.4v.] no anno seguinte (1795) se lançou a primeira pedra do palacio monumental que ao presente existe, refasendo-se o passadiço de communicação com a casa da livraria.
Nessa casa se depositaram, desde que ella se edificou e d'ahi por deante, juntamente com as raras peças da Bibliotheca d'El Rei e da Bibliotheca do Infantado salvadas do Cataclismo, livros de diversas procedencias: os da excellente livraria de Barbosa Machado por elle offerecida a El Rei D. Jose; [os da livraria (riscado)] // [f.5r.] os da livraria de Nicolau Francisco Xavier da Silva, comprada por El Rei; os da livraria do Conde de Redondo, e os confiscados aos Jesuitas e aos fidalgos julgados cumplices no atentado contra a vida de El Rei D. José; etc. Foi esta copiosa e rica colleção que em 1811 o Principe Regente mandou ir para o Brazil juntamente com a dos manuscritos da coroa a esse tempo arrecadados no Convento das Necessidades. Os manuscritos voltaram quase integral//mente [f..5v.] para Lisboa a seguir ao regresso da familia real, e são os da actual collecção da Ajuda. Os impressos, em numero de cerca de 60 mil, ficaram em sua quasi completa totalidade no Rio de Janeiro, onde constituiriam o fundo da Bibliotheca Nacional, destinando-se os duplicados a nucleo da Bibliotheca da Bahia. Juntamente com os livros da Bibliotheca Real da Ajuda ficaram no Brazil numerosas tapeçarias, alfombras e panos de armar, de alto valor, ali completamente destruidos e reduzidos a pó pelo bicho cupim. Entre os livros foi mais tarde // [f.6r.] encontrada pelo bibliothecario brasileiro Ramiro Galvão uma preciosa colecção de gravuras de Alberto Dürer.
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Ramalho Ortigão (Porto, 1836 - Lisboa, 1915); Director da Biblioteca da Ajuda (1895 -1911)



Dando sequência ao prometido, em texto datado de 5 do corrente mês e dedicado a Ramalho Ortigão, eis uma transcrição de carta dirigida a D. Manuel II, à qual anexa relatório pormenorizado sobre as actividades da sua exemplar gerência da Biblioteca da Ajuda. 

A disponibilizar em linha durante os próximos dias.

2 fls. ­ Ms. s. papel carta tarjado com cercadura a negro e com timbre da ‘‘Real Bibliotheca da Ajuda’’ com as armas reais.
Arquivo Histórico do Ministério das Finanças, maço 44 - n.848 
 
[f.1r.] [timbre da Real Bibliotheca da Ajuda com as armas reais]
 
25 de março 1908
Meu Senhor
Tenho a honra de enviar a Vossa Magestade o talvez já retardado relatorio da minha gerencia na livraria da Ajuda como bibliothecario do meu saudoso e chorado amo El Rei o Senhor D. Carlos, cuja cabeça quis Deus assignalar à imortalidade pela aureola do martírio. Só depois da leitura d'essa informação, convenientemente esclarecida e ratificada, poderá Vossa Magestade ajuizar do destino que durante - seu reinado mais // [f.1v.] convenha dar à direcção da Real Bibliotheca. Desde já reverentemente me inclino perante qualquer resolução que Vossa Magestade haja de tomar sobre tal assumpto.
Conjuntamente transmitto a Vossa Magestade duas das cartas de condolencia que o nosso lucto nacional inspirou a alguns dos meus amigos. Uma é de Madame Iturbe, senhora de grande prestigio mundano e artistico, que ha poucos annos visitou Lisboa e foi recebida no Paço como esposa do então Ministro do Mexico em Madrid D. Manoel Iturbe. A outra é de Camille Tulpinck, director da importante publicação Les anciens arts de Flandres, da qual Vossa Magestade encontrará os magni//ficos [f.2r.] fasciculos até hoje publicados na livraria particular de El-Rei o Senhor D. Carlos, o qual se tinha inscrito entre os Altos protectores, dos quaes vem exarada a relação no verso da capa de cada caderno da referida obra. Eu mesmo sou do Comité de patronage e bem assim colaborador de Anciens Arts de Flandres, onde tanta coisa ha que fazer conhecer da antiga arte em Portugal. O artigo a que a carta de Tulpinck se refere, e que ainda lhe não mandei apesar de o ter escrito, versa sobre os quadros de Gerard David no archiepiscopado d’ Evora, os quaes fiz para esse fim reproduzir pela photografia.
Rogo a Vossa Magestade que se digne a fazer-me saber se deseja, como Tulpinck // [f.2v.] tão vivamente solicita, continuar a assignar a obra interessantissima de que se trata e a subscrever-se na lista puramente honorífica des Hauts protecteurs.
Beija a mão de Vossa Magestade o seu muito respeitoso e dedicadissimo creado.
[assin.] Ramalho Ortigão
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Ramalho Ortigão (Porto, 1836 - Lisboa, 1915)




  A Biblioteca da Ajuda associa-se, com gosto e entusiasmo, ao Centro Nacional de Cultura na celebração de “O Dia de Ramalho Ortigão”, a decorrer no dia 8 deste mês, no Centro Cultural de Belém — Sala Almada Negreiros.




 Destacado membro da Geração de 70, Ramalho “tinha de ser fatalmente escritor”, como disse, após ler As Viagens na minha Terra”, obra que o cativou.

Foi professor de Eça de Queirós, então estudante no colégio de seu pai, o Colégio da Lapa, onde leccionou francês. Com este viria a partilhar, mais tarde, parte importante e profícua da sua actividade de homem de letras.
Estudou em Coimbra, sem que tenha terminado o curso de Direito.
Colaborou com vários periódicos e foi redactor de Jornal do Porto, tendo aí publicado o Literatura hoje, folheto de intervenção na Questão Coimbrã.

«O único inimigo comum para os últimos dos românticos no jornalismo portuense era a estupidez humana, representada pelo honesto burguês da Rua das Flores e da Rua dos Ingleses, e era o espírito imobilizante de rotina, simbolizado no carroção veículo de família puxado a bois [...].» (As Farpas, t. I.).

Foi amigo de Antero, após ultrapassar derrota em duelo desafiado por este, dadas discordâncias ideológicas entretanto dissipadas; Ramalho, relutante de início, desenvolveu simpatia pelo ideário de Comte e o de Proudhon.

Viajante, cosmopolita, amante da vida, figura de fino humor, o escritor foi cimentando uma predilecção pela cultura tradicional portuguesa, visando sempre cultivar as populações, pendor pedagógico que o engrandeceu.

Em 1867 fixa residência em Lisboa e exerce como oficial da secretaria da Academia de Ciências; integra o grupo dos Vencidos da Vida e em 1895 assume funções na Biblioteca da Ajuda, tendo marcado decisiva e positivamente o seu funcionamento, também por ter introduzido uma nova metodologia de catalogação, ainda hoje em prática nesta biblioteca.
Bibliotecário dedicado e disciplinado, mantinha o hábito diário de registar, por escrito, factos (visitas de ilustres, por exemplo) e procedimentos inerentes a correcta organização e eficiente gestão desta casa do Saber.

Nos seus escritos, no fim da vida e já após a instauração da República, Ramalho expressou o seu desencanto com o novo regime político.

«Eu sou de uma idade transitória, vim obscuramente num período de transformação, com uma ala de sapadores, e pertenço à pequena companhia antipática dos bota - abaixo.» (As Farpas, t. I)

BIBLIOGRAFIA
(primeiras edições)

Em Paris, 1868
O mistério da estrada de Sintra (em colaboração com Eça de Queirós), 1870
As farpas: chronica mensal da politica das letras e dos costumes  (em colaboração com Eça de Queirós), 1871 
Banhos de caldas e águas minerais, 1875
As praias de Portugal: guia do banhista e do viajante, 1876
Notas de Viagem, 1878
Pela Terra Alheia, 1878
Theophilo Braga, 1879
A Holanda, 1883
John Bull e a Sua Ilha, 1887
O culto da arte em Portugal, 1896
Últimas Farpas, 1916
Quatro Grandes Figuras Literárias,1924
Arte portuguesa,1943
Figuras e Questões Literárias,1943
Farpas Esquecidas,1946

Entendemos alargar no tempo esta merecida homenagem a Ramalho Ortigão, pelo que, ao longo da próxima semana, serão por nós disponibilizados, neste blog, documentos da autoria do escritor, do acervo desta biblioteca e não só, que, estamos certos, irão contribuir para um melhor e mais aprofundado conhecimento do seu trabalho e da sua personalidade. A não perder...